"A grande filosofia da chatroom!"

Rio de Janeiro - 02/06/2003
ENTREVISTA: CÉSAR BENJAMIM

Ao colunista Élio Gaspari -

O senhor escreveu para a revista "Caros Amigos" um artigo intitulado "Dialética da empulhação", no qual mostra que a linguagem do governo petista está corrompida. Como lhe ocorreu isto?

Em quase seis meses de governo, o PT não apresentou uma só idéia boa e nova. Ouvindo seus porta-vozes, sobretudo Lula, fui-me dando conta de que havia uma ligação entre a falta de idéias e um monólogo corrompido. A primeira empulhação está na criação de um interlocutor imaginário a quem se responde com raro bom senso. Por exemplo: "Você não pode mudar tudo da noite para o dia". Ou "o Brasil não pode se isolar do mundo". E "não sejamos lenientes com a inflação". Você já encontrou alguém querendo inflação e isolamento, além de pretender mudar tudo num só dia: Esse tipo de imbecil não existe. É empulhação de quem não quer discutir o seu projeto de mudanças, de ação internacional e de controle da inflação. Como o interlocutor é imbecil, finge-se que há um debate para manter um monólogo. A dialética da empulhação é o discurso de Lula têm outra marca. Apresentam analogias como se fossem argumentos.

Dê alguns exemplos.
Lula já disse que "ir ao dentista é inevitável". Isso justifica os juros de 26,5% que levaram a uma contratação do PIB nos seus primeiros três meses de governo. Como "Boeing não dá cavalo de pau", você radicaliza a política de estagnação econômica. É uma retórica de realismo fantástico, delícia da turma do "Casseta & Planeta". De tanto usar analogias, Lula ficou preso numa. Na última terça-feira ele disse que a economia brasileira está como uma bicicleta ergométrica. Você pedala e não sai do lugar. De duas uma, ou Lula descobriu que bicicleta ergométrica não sai do lugar, ou está descobrindo que sua política econômica arruína a economia nacional. Sua fala está pontilhada de parábolas e platitudes. Ouça: "Apressado come cru". É um daqueles provérbios populares que não querem dizer nada. Ou talvez queira dizer que você deve deixar para amanhã o que fazer hoje. A propaganda do PT diz que até 1962 as mulheres precisavam de licença do marido para trabalhar. Como isso mudou, a reforma da Previdência é necessária. Acham que estão num país de débeis mentais.

Essa opção pela empulhação traz riscos ou são só palavras?
Traz riscos. Impõe um debate autoritário, irresponsável. Veja o caso da reação ao desempenho de Fernando Henrique Cardoso. Há três discursos. O da continuidade virtuosa, e seu oposto, o da "herança maldita". Lula recorre a ambos. Finalmente, há a retórica do compromisso com o futuro. ("Não vamos nos prender ao passado"). Um dia o José Genoíno defendia o superávit primário de 7% no sítio do "Primeira Leitura" e noutro sítio, da militância, reclamava da "herança". Temos que procurar o que há atrás desses discursos. O núcleo da agenda de Lula é de direito. Essa política não se sustenta até o fim do ano. Para prazer do sistema financeiro, o Estado foi colocado em vida vegetativa. Ele se limita a pagar salários e juros. Uma taxa de desemprego acima de 15% sempre traz graves e problemas sociais. Havia a esperança de um governo petista. Agora não há mais nisso. No segundo semestre o desemprego estará em 23 ou 24%. Eu não me iludo com pesquisas de opinião. Vem aí um coice.