Entrevista
Entrevista:
Van Creveld
O
sexo oprimido
Historiador
diz que os discriminados
são os homens e que eles têm menos
direitos que as mulheres
Diogo Schelp
O historiador
israelense Martin Van Creveld, de 57 anos, está acostumado a tratar
de questões polêmicas. Professor da Universidade Hebraica
de Jerusalém, especialista em história militar, Van Creveld
é chamado com freqüência para opinar sobre conflitos
mundiais, como os que atingem seu país. Lecionou nos principais
institutos de estratégia, civis ou militares, do mundo ocidental,
incluindo a Escola de Guerra Naval dos Estados Unidos. Pesquisador respeitado,
nos últimos anos Van Creveld tem se dedicado também a estudar
outro tema explosivo: a guerra dos sexos. Em seu mais recente livro, O
Sexo Privilegiado, publicado neste ano na Alemanha e recheado de estatísticas,
ele defende que são os homens não as mulheres
os verdadeiros oprimidos pela sociedade. Ph.D pela London School of Economics,
da Inglaterra, e autor de dezessete livros, entre os quais obras de referência
no meio acadêmico, como O Futuro das Guerras e As Mulheres
e a Guerra, Van Creveld faz questão de dizer que é casado
e vive muito feliz com sua esposa. Na entrevista a seguir, ele explica
sua teoria antifeminista.
Veja
O senhor é conhecido como historiador militar. Como se interessou
pelo tema da discriminação contra os homens?
Van Creveld Tudo começou alguns anos atrás, quando
escrevi um livro sobre as mulheres e as guerras. Achei esse tema tão
interessante que decidi fazer outro livro sobre o assunto. Como todo mundo,
eu achava que os homens realmente oprimiam as mulheres e queria descobrir
como era possível que essa situação pudesse persistir
por milênios. Só depois de meses de pesquisa descobri que
as evidências não davam suporte a minha tese e que, na realidade,
são as mulheres o verdadeiro sexo privilegiado.
Veja
E por que isso acontece?
Van Creveld Simples. Os homens não podem existir sem
as mulheres. Já as mulheres, enquanto houver um único doador
de sêmen, podem existir perfeitamente sem os homens. Essa condição
natural condenou o sexo masculino a trabalhar mais pesado para sustentar
o sexo feminino. Também teve como resultado o fato de que os homens
são tratados com mais rigidez na educação infantil
e perante a Justiça, além de estarem sempre prontos a morrer
pelas mulheres em tempos de guerra ou de paz.
Veja
Por outro lado, no passado as mulheres eram condenadas a ficar em casa,
não tinham a opção de trabalhar. Em muitas sociedades,
isso ainda acontece. Tal fato não prova que as mulheres é
que são oprimidas pelo homem?
Van Creveld Não. Salvo raríssimos casos, o homem
também não pode escolher se vai trabalhar ou não.
Trabalhar, para o homem, é obrigação. Segundo a Bíblia,
o trabalho foi um castigo dado para Adão, não para Eva.
Além disso, as donas-de-casa são privilegiadas. De todos
os grupos da população, elas são as que detêm
a maior segurança e tempo disponível para dedicar a si próprias.
Mesmo nas sociedades modernas, em que as mulheres já estão
espalhadas no mercado de trabalho, as funções mais pesadas
e sujas são realizadas por homens. Nos Estados Unidos, 93% dos
mortos em acidentes de trabalho são homens. Isso ajuda a explicar
outro indício de que as mulheres são privilegiadas: os homens
vivem, em média, menos que elas. Por fim, poucas mulheres estão
dispostas a sustentar o companheiro. Nos Estados Unidos, apenas 10% das
mulheres ganham mais que o marido, e as estatísticas mostram que
o índice de divórcio nesses casos é muito alto.
Veja
E quanto às mulheres terem garantido o direito ao voto apenas
recentemente?
Van Creveld As mulheres são, em média, menos
criativas. Isso explica por que são os homens os responsáveis
por praticamente todas as grandes invenções, descobertas
e inovações humanas. Os homens quase sempre iniciam algo;
as mulheres quase sempre os imitam. Os homens inventaram o impressionismo
e, depois, uma ou duas pintoras os imitaram. Os homens construíram
e dirigiram carros, depois as mulheres quiseram dirigir também.
Os homens inventaram os computadores e as mulheres aprenderam a usá-los.
Os homens lutaram para ter direito ao voto. As mulheres ficaram com inveja
e fizeram a mesma reivindicação.
Veja
Se as mulheres é que sempre concentraram os privilégios,
por que elas lutam, através do feminismo, para mudar sua situação?
Van Creveld Como os homens, elas também querem ter mais
privilégios. Como são, em média, mais fracas fisicamente
que os homens, sua estratégia preferida para fazer isso é
reclamar. Isso significa que, se todos os homens fossem enjaulados e todas
as mulheres fossem declaradas donas de cada homem, elas continuariam reclamando.
Para elas, reclamar funciona. Desde criança elas são criadas
para acreditar nisso. Quando um garoto chora, ele é desprezado.
Já as meninas, quando choram, são consoladas. O que é
o feminismo se não uma eterna lamentação?
Veja
O senhor acredita que no mundo moderno as mulheres são
ainda mais privilegiadas que no passado?
Van Creveld Em meu livro eu mostro que a sociedade sempre fez
a vida dos homens ser mais difícil que a das mulheres. Desde o
início dos tempos os homens foram criados para produzir e dar e
as mulheres sempre para receber e reproduzir. Os homens sempre tentaram
dar à companheira uma vida mais fácil, mais segura e mais
confortável. Recentemente, o feminismo ajudou as mulheres a ter
privilégios adicionais. Portanto, elas são, realmente, ainda
mais privilegiadas que no passado e os homens, ainda mais oprimidos.
Veja
Em tempo de guerra, crianças e mulheres formam a parcela da
população que mais sofre. É verdade?
Van Creveld Não. Em quase todas as formas de conflito
armado os homens morrem em muito maior número que as mulheres.
Há outras formas de sofrimento, mas eu não acredito que
alguma possa ser pior do que morrer. A impressão de que as mulheres
sofrem mais vem do fato de que os mortos (os homens), ao contrário
dos vivos (as mulheres), não podem reclamar.
Veja
Os homens concentram mais riqueza e poder que as mulheres. Isso o senhor
não contesta?
Van Creveld Não. Mas isso não serve de prova
de discriminação contra as mulheres. Sabe-se que, por liberarem
mais testosterona, os homens são mais agressivos e portanto mais
competitivos que as mulheres. São também mais fortes fisicamente,
o que permite que exerçam funções de liderança
com menos esforço. Além disso, eles abandonam com menos
freqüência uma carreira; as mulheres costumam sair do mercado
de trabalho para satisfazer seu desejo de ter filhos e criá-los.
Para completar, os estudos mostram que, se na média homens e mulheres
são igualmente inteligentes, no grupo de pessoas com QI mais elevado,
acima de 180, a proporção é de sete homens para cada
mulher. Tudo isso explica por que os homens tendem a ocupar mais cargos
de chefia e a ter mais facilidade para ganhar dinheiro.
Veja
Em sua vida pessoal, o senhor também se sente discriminado?
Van Creveld Como homem, eu sou constantemente discriminado
em todas as formas de benefícios sociais. Por exemplo, minha esposa
tem direito à licença-maternidade, eu não. O plano
de saúde de minha universidade é mais benevolente na cobertura
de doenças femininas, como o câncer de mama, que de doenças
masculinas, como o câncer de próstata. Além disso,
em Israel, como em muitos outros países, existe a crença
de que as mulheres amam seus filhos mais do que os pais são capazes
de amar. Não existe nada que prove que isso é verdade. No
entanto, as leis tornam praticamente impossível para um pai divorciado
obter a custódia dos filhos. Eu passei por um divórcio.
A dor de não ter conseguido a guarda de meus filhos vai me acompanhar
até meu último dia de vida.
Veja
As feministas têm um arsenal de estatísticas para provar
que são oprimidas. Elas apontam, por exemplo, o fato de que, em
alguns países, todo dia 6.000 meninas
sofrem dolorosas cirurgias nos órgãos genitais para não
ter mais prazer com o sexo.
Van Creveld A clitoridectomia, como é chamada essa
operação, é algo que velhas mulheres, agindo como
suas ancestrais, impõem a jovens mulheres. Os homens dificilmente
estão envolvidos nisso. Além disso, simplesmente não
é verdade que a operação priva a mulher de prazer
no sexo. Na maioria dos casos, isso não acontece. É um mito.
Não esqueça também que o número de garotas
que passam por isso não se compara ao número de garotos
que passam pelo processo de circuncisão. Por que ninguém
se levanta contra esse hábito? A resposta é simples: nós,
homens, somos feitos para aceitar a dor.
Veja
No passado, as mulheres não eram mandadas para a guerra. Agora,
vemos cada vez com mais freqüência garotas cometendo ataques
suicidas em Israel e na Rússia, por exemplo. As mulheres perderam
o privilégio de ser defendidas em tempo de guerra?
Van Creveld A resposta está na palavra "mandadas". No
passado, e em muitos países até hoje em dia, um número
incontável de homens é recrutado e "mandado" para a guerra.
Isso nunca aconteceu com as mulheres. Mesmo em Israel, as poucas combatentes
mulheres que temos são voluntárias. O mesmo acontece com
as palestinas suicidas. Como em muitos outros terrenos da vida, as mulheres
têm o direito de escolher, enquanto os homens têm de agir
contra a vontade própria.
Veja
As feministas dizem que as mulheres são mais diplomáticas
e menos violentas quando estão em funções de liderança
ou que requeiram o uso da força. Nesse sentido, é interessante
ter mulheres em corporações como a polícia e as Forças
Armadas?
Van Creveld Os machos são, em média, mais violentos
que as fêmeas. Mas a história mostra que as líderes
femininas estão fora do padrão médio das mulheres.
Lembre-se de Indira Gandhi e Margaret Thatcher. Elas eram tão agressivas
e belicosas quantos os homens, ou até mais. Mulheres que escolhem
atuar na polícia, por exemplo, talvez tenham a mesma característica.
Por outro lado, o corpo feminino é muito menos adequado para se
envolver em situações de violência. No Exército
americano, as recrutas têm só 55% de força na parte
superior do corpo e 72% na parte inferior, em comparação
aos homens. Ou seja, como os homens possuem maior capacidade de ganhar
musculatura, em vez de o treinamento intensivo diminuir as diferenças
entre os sexos, tende a aumentá-las ainda mais.
Veja
As mulheres, por questões físicas, são mais propensas
a ser vítimas de abuso sexual que os homens. As feministas dizem
que todo homem é um estuprador em potencial. O que o senhor acha
disso?
Van Creveld As mulheres, talvez por passarem mais tempo com
os filhos, matam mais crianças que os homens. Alguém diz
que toda mulher é uma assassina de crianças em potencial?
Veja
As estatísticas sobre agressões contra mulheres não
colaboram com as teses feministas?
Van Creveld Não as estatísticas que eu cito em
meu livro. Pesquisas americanas e canadenses mostram que o número
de agressões entre homens e mulheres é igual, 25% para cada
sexo. Nos outros 50% dos casos, os ataques são mútuos. Além
disso, 20% mais mulheres cometem danos graves aos seus parceiros. Mais:
as mulheres cometem três vezes mais agressões com uso de
armas do que os homens. Por fim, os homens, com medo de serem ridicularizados
ou presos, costumam não dar queixa quando apanham de uma mulher.
Veja
A Justiça é mais branda com as mulheres?
Van Creveld Sem dúvida. Em todas as sociedades modernas,
as mulheres recebem menos condenações que os homens. E,
quando são condenadas, cumprem penas menores do que outros homens
que cometeram o mesmo crime. Na Inglaterra, entre 1984 e 1992, 23% das
mulheres acusadas de homicídio foram absolvidas, enquanto apenas
4% dos homens foram considerados inocentes. Na Califórnia, nos
Estados Unidos, em todo o século XX foram condenados à morte
468 criminosos. Apenas quatro eram do sexo feminino.
Veja
A discriminação contra o homem, da forma como o senhor
a descreve, é um fato inalterável da natureza?
Van Creveld Em muitos países, já existem movimentos
para melhorar as condições de vida dos homens. Seu propósito
é defender o sexo forte nas situações em que há
mais discriminação, como nos divórcios e nas falsas
acusações de abuso sexual ou de violência doméstica.
Mas as coisas não tendem a mudar muito. O homem, como diz o provérbio
árabe, é o jumento da casa. A natureza nos fez maiores,
mais fortes e, nos casos extremos, até mais inteligentes. Tudo
para sustentar e alimentar as mulheres. Afinal, antes disso uma mulher
nossa mãe também nos carregou, nos alimentou
e cuidou de nós.
|