"Chama-se SUBJETIVO aquilo que se vale de interpretação pessoal: mania de quem quer chegar à verdade através da observação da natureza humana. O buraco sempre é mais embaixo, quando lidamos com a ansiedade do dia-a-dia."
Rio de Janeiro - 16/06/2004
A MANIA DO COTIDIANO
Feito'M'Vox

TRANSTORNO OBSESSIVO COMPULSIVO
Por Mário Quilici


Tem sido comum falar dos Transtornos Obsessivos na mídia. Não raro é que alguns leigos conheçam algo sobre as famosas “compulsões” como, por exemplo, lavar as mãos repetidamente. Isso quer dizer que hoje, os Transtornos Obsessivos  são bem estudados e conhecidos como também, existem inúmeras  opções de tratamento. Já existem muitas formas medicamentosas de tratar alguns sintomas desse transtorno. Mas a psicoterapia ainda é uma das formas mais eficientes.

Atualmente, com um grande número de pesquisadores vem dedicando-se ao assunto. Dessa forma, temos hoje, uma quantidade maior de informações e descrições sobre a doença e seus sintomas . Mas devemos lembrar que foram os psicanalistas que primeiramente descreveram essa patologia maiores detalhes.
 
Sigmund Freud, em sua época, descreveu alguns casos de pacientes obsessivo-compulsivos. Um dos mais famosos é o caso do “Homem dos Lobos”. Freud atribuía o surgimento dos problemas obsessivos a um processo de autopunição que o paciente utilizaria para controlar as pessoas que viviam em torno dele. Isso é bem possível. Freud e seus seguidores da época (especialmente  Abrahan, Jones, Rank  e Menninger), acreditavam que a patologia obsessiva, devia-se a uma fixação na fase anal (cujas características são parcimônia, ordem e obstinação) do desenvolvimento psicossexual. Freud falava também sobre a raiva excessiva e conseqüentemente da culpa desses pacientes.

Muitas vezes percebemos uma confusão entre o Transtorno Obsessivo e a Neurose obsessiva. Há uma distinção a ser feita entre esses dois espectros da doença  Obsessiva. Para mim é controversa a diferença que se faz entre essas duas entidades nosológicas (descrições das doenças). Há quem afirme que, quando o processo obsessivo é ego distônico, teremos uma Neurose Obsessiva Compulsiva. Quando os sintomas forem ego sintônicos, teremos o Transtorno Obsessivo Compulsivo. A mim não parece que essa diferença exista porque, mesmo no TOC, Transtorno Obsessivo Compulsivo, os sintomas são ego distônicos. E o paciente sofre muito com seus sintomas que não são passíveis de controle.

Creio que há uma estrutura  obsessiva compulsiva,  que atua tanto na neurose quanto no transtorno já que na neurose obsessiva existe uma estrutura de caráter subjacente obsessiva compulsiva que é comum ao TOC. Na minha opinião, há apenas uma diferença de intensidade ou, se ficar melhor, de gravidade, separando uma neurose obsessiva de um transtorno obsessivo. Os dois processos referem-se a transtornos relacionados com a ansiedade. 

O PACIENTE OBSESSIVO

Em geral esses pacientes  empregam operações defensivas muito peculiares, incluindo-se ai o isolamento de afeto, intelectualização, formação reativa, anulação e deslocamento. A formação reativa é um dos mecanismos característicos da neurose obsessiva. Esse mecanismo de defesa, caracteriza-se por um comportamento contrário a um desejo subjacente. Por exemplo, a mania de limpeza num indivíduo seria uma formação reativa contra o desejo de envolver-se com a sujeira e seus derivados. O indivíduo ordeiro lutaria contra um desejo de bagunçar tudo e o indivíduo religioso, estaria lutando contra seus desejos maléficos.  

O trabalho com esses pacientes é muito complicado por causa de sua dificuldade, não só  de expressar agressão como também de reconhecer os reais sentimentos que estão subjacentes às suas obsessões. Eles querem ter o completo controle da vida e de sua raiva. São pessoas que  fazem deferências ou são obsequiosos com o objetivo de evitar qualquer demonstração de seus sentimentos agressivos. 

Em geral os indivíduos com Transtornos Obsessivos Compulsivos-TOC,  sofrem de grande insegurança por causa do rebaixamento de auto-estima. A experiência infantil, como nos demais Transtornos de Personalidade, aponta para um relacionamento familiar onde os indivíduos foram desvalorizados, desprezados e quando não, ridicularizados. Observa-se que tais pacientes demonstram grandes anseios por dependência que não foram preenchidos,  e uma grande raiva dirigida aos pais que não estiveram disponíveis quando foram necessários. Essa necessidade de proteção e cuidados, entretanto, é negada pelos paciente que fazem questão de repudiar qualquer dependência  que possam ter das pessoas mostrando distanciamento, austeridade e individualismo.  

FENOMENOLOGIA

Embora a literatura e a mídia tenham permitido que muitas pessoas estejam  familiarizadas com os sintomas típicos do TOC, nós profissionais  sabemos que existem muitos sintomas que não são tão óbvios como aquelas compulsões mostradas nas reportagens da mídia. Os principais sintomas primários do TOC são: obsessões, compulsões e duvidas constantes e infindáveis. O indivíduo nunca consegue decidir-se por esse ou aquele comportamento e assim, depende dos outros para tomar decisões, para ter uma crença ou mesmo sobre seu futuro. Ele também parece não ter certeza do que se passa com ele e por isto, está sempre aflito. 

As obsessões em geral, são experimentadas como estranhas, ou seja, ocupam o pensamento de forma que o indivíduo não tem controle sobre elas. São extremamente perturbadoras e portanto, ego distônicas. Tais obsessões podem se constituir de pensamentos, imagens, melodias ou sons que são difíceis quando não impossíveis, de serem repelidos.  Por exemplo: uma paciente tinha sempre imagens de um centro de macumba que vinham acompanhadas das cantilenas características e que lhe ocupavam a  mente de forma intrusiva. Por mais que ela tentasse desfazer-se do pensamento, não conseguia. A paciente ficava em pânico. Os temas obsessivos podem estar em torno da contaminação por micróbios, sexo, religião e agressão. Em geral envolvem o pensamento mágico que na minha opinião, são fantasias de compensação por situações que feriram-nos. As idéias obsessivas são extremamente rígidas.

Idéias rígidas são idéias obstinadas,  estáveis e carregadas afetivamente de maneira que são muito difíceis de serem modificadas. As obsessões também podem se apresentar como compulsões mentais. Em outras palavras, assim como o paciente pode ter uma compulsão de lavar as mãos uma infinidade de vezes durante o dia (compulsão motora), ele pode  utilizar-se do  pensamento de controle com o qual obtém algum alivio. Um exemplo disso é uma paciente ainda jovem que  tinha que pronunciar determinadas palavras de trás para frente,  para evitar que acidentes acontecessem com sua família.  

Existem também outras compulsões comuns (ou mais conhecidas) como, por exemplo, lavar as mãos inúmeras vezes seguidas, limpar a casa constante e desnecessariamente, lavar a cabeça uma infinidade de vezes, conferir coisas, contar e ordenar objetos, fazer a arrumação minuciosa de objetos , contar objetos ou palavras, rezas ritualisticas, revisões constantes de atos executados. Uma paciente saía de casa e voltava uma infinidade de vezes para se certificar de que não havia deixado a porta aberta.  Um outro paciente obsessivo detestava receber visitas em sua casa. Se alguma de suas visitas tirasse uma peça da decoração do lugar, ele entrava em desespero e só ficava tranqüilo, após ter recolocado as coisas no exato lugar em que estavam originalmente.  Alguns objetos tinham uma marca quase que imperceptível para que fossem sempre colocados no mesmo lugar.

Existem compulsões que parecem incomuns mas não são. São as compulsões  automutiladoras como,  por exemplo, coçar a pele até machucar, morder-se, cortar-se, roer unha até sangrar os dedos, coprolalia (Impulso mórbido que leva o indivíduo a proferir obscenidades), necessidade de fazer coisas com o sentimento correto ou num determinado momento, engolir a comida de determinada forma, cuspir, tocar algum objeto etc. Uma paciente tinha o hábito de "limpar"o rosto de suas acnes, com a unha. Estava sempre com inflamações sérias na face.

 A compulsão, tanto mental como motora, tem o objetivo de desfazer ou neutralizar as obsessões. Por exemplo, um paciente achava que ia levar um tiro na cabeça se não tocasse um determinado tipo de madeira. Uma outra precisava arrotar para que sua mãe não adoecesse. Pacientes de TOC também podem demonstrar muitos sintomas secundários como depressão (muito comum), fúria, perturbações perceptuais e dificuldades sexuais. Freqüentemente a depressão é secundária para o TOC. O sentimento de raiva, geralmente, só  é manifestado quando a alguém interfere com as compulsões do indivíduo. Muitos pacientes acabam por agredir física e verbalmente seus familiares porque eles se recusam a cooperar na execução de uma compulsão ou por tentarem impedir o paciente de se ocupar da compulsão. Uma paciente chegava a agredir seus familiares que insistiam em abrir fora de hora, as gavetas de uma cômoda que poderiam liberar micróbios que iriam deixa-la doente.  

NOVIDADES NO CAMPO CIENTIFICO

Hoje, muitos estudos estão sendo feitos em todas as áreas do psiquismo. E o TOC tem recebido atenção especial de alguns grupos de pesquisadores. Mas o que vem  surpreendendo é que,  algumas condições mórbidas que antes pareciam entidades nosológicas (nosologia: ramo da medicina que estuda, classifica e descreve doenças), com existência própria, agora começam a dar sinais de que podem estar  ligadas ao TOC. 

Alguns pesquisadores afirmam que a Síndrome de Tourette e a Anorexia Nervosa estão relacionados ao TOC. A anorexia Nervosa, eu não sei, mas, a Síndrome de Tourette tem muitas características próximas do TOC. Existem outras condições que estão sendo relacionadas ao TOC, como por exemplo, automutilação, as epilepsias e as encefalites. Serão necessários muitos estudos ainda, para que possamos definir de fato se tais patologias são ou não parte do TOC.

Recentemente, Yaryura-Tobias e colaboradores (1996) notaram que certas desordens têm uma alta probabilidade de ocorrência nos pacientes com TOC. Por exemplo, eles acreditam que os pacientes de TOC, geralmente têm uma alta probabilidade de terem tiques nervosos, desordens somatoformes, desordens de humor ou alguma desordem de ansiedade. O TOC é um transtorno de ansiedade por definição e assim, as afirmações desses pesquisadores, neste sentido, não acrescentam muito. Talvez o mais interessante seria sabermos se as epilepsias e as encefalites podem estar relacionadas ao TOC.

Gostaríamos de centrar nossos esforços em três desordens que, de acordo com minha experiência, surgem nos indivíduos com TOC: dismorfia, hipocondria e tricotilomania.

DISMORFIA


Fenomenologicamente, os dismórficos de corpo apresentam dois sintomas primários de TOC: obsessões e compulsões. Morselli (1891) usou o termo dismorfia para explicar um sentimento subjetivo de deformidade corporal, apesar da pessoa ser fisicamente normal. Além da dúvida patológica acerca da deformidade corporal, esse tipo de indivíduo tem noção de sua percepção inadequada . A maioria desses pacientes exibem uma grande quantidade de idéias rígidas. Creio que, nesse aspecto, as observações de Yaryura-Tobias são pertinentes com minhas observações práticas. Pacientes com TOC, geralmente apresentam idéias de deformação física que não existem. Uma paciente jovem e muito bonita, gastava uma grande quantidade de dinheiro com tratamentos estéticos para eliminar uma barriga que não existia.

Nossa compreensão sobre a dismorfia ainda é muito precária. Geralmente os dismórficos preocupam-se com a face, o cabelo, a pele, o nariz e olhos. Por exemplo, a obsessão com deformidades imaginárias na pele, podem levar o paciente a gastar verdadeiras fortunas com tratamentos estéticos, produtos de beleza e dermatologistas, enquanto eles, ironicamente,  continuam ferindo-se (cutucando) e deixando cicatrizes por onde seus dedos destruidores passam. Para aqueles que se interessarem mais pelo assunto, uma revisão interessante desta desordem foi feita por Phillips (1996) e Yaryura-Tobias e Neziroglu (1996).

HIPOCONDRIA

O cerne da hipocondria é o medo obsessivo de ter uma doença grave. Para isso o individuo interpreta erroneamente sinais corporais e sintomas. Pacientes hipocondríacos geralmente buscam reafirmações de sua saúde com muita freqüência e esse comportamento nos lembra as compulsões presentes no TOC. É normal que tais pacientes fiquem observando seus corpos obsessivamente em busca de sinais de doenças. O paciente que citamos acima e que se preocupava os objetos de decoração fora do lugar, tinha uma obsessão com sua saúde. Se o paciente tinha uma espinha entrava em pânico. Ia ao dermatologista e depois, fazia curativos com esparadrapos da cor da pele, recortando-os de tal forma, que cobriam exatamente as dimensões da espinha. Tinha receio que as espinhas fossem sinais de câncer.

Segundo Yaryura-Tobias (1996), uma das doenças características desses pacientes é a Síndrome de Cólon Irritável (Cólon: Porção média do intestino grosso que termina no reto). A grande maioria dos sintomas relatados por esses pacientes, são normais e transitórios nas pessoas saudáveis. Em geral, o paciente hipocondríaco parece mais interessado na autenticidade do problema que propõe,  do que no significado etiológico dos sintomas ou com a sensação desagradável ou dor. Em outras palavras, o paciente hipocondríaco que se queixa de dores de cabeça, está mais preocupado com o "tumor" que está causando a sua dor de cabeça, do que com a dor propriamente dita.

TRICOTILOMANIA

 A Tricotilomania é o ato mórbido de puxar e arrancar continuamente os cabelos. É uma forma bem clara de automutilação. Esse tipo de paciente se ocupa de puxar periodicamente pequenas quantidades de cabelos o que resulta numa perda notável. Em geral esses pacientes ficam intensamente ansiosos se não cederem à compulsão de puxar o cabelo e sentem que a ansiedade se reduz depois de executarem o ato.  Eles puxam os cabelos em pequenas quantidades. Existe uma certa controvérsia entre os cientistas sobre a inclusão ou não da tricotilomania no TOC. Mas me parece que, independente de ser uma atividade que implique ou não no surgimento da ansiedade, é uma atividade compulsiva porque não pode ser evitada e assim, está dentro do que chamamos de TOC.  

O TRATAMENTO

O tratamento do Transtorno de Personalidade em geral, deve ser feito com psicoterapia e, dependendo da gravidade, com medicamentos que  geralmente é utilizado  para o controle da depressão e da ansiedade que inevitavelmente e surgem nesse tipo de paciente. É extremamente importante  que um  diagnóstico correto seja feito, ou seja, onde o TOC esteja bem diferenciado da Esquizofrenia e de Transtorno Bipolar.  No tratamento com esse tipo de paciente, acho que a base psicanalítica é de fundamental importância. É necessário que uma aliança terapêutica solida seja estabelecida com o paciente para que, através da transferência as modificações podem ser obtidas. Sempre utilizo com bons resultados a psicanálise e algumas técnicas cognitivas. 

O trabalho com esse tipo de paciente nunca é fácil dada a natureza do transtorno. Mesmo que os sintomas sejam ego distônicos e o paciente saiba que aquilo não está de acordo com sua vontade consciente, ele tem dificuldades de atuar em seu próprio beneficio. O controle tem uma função de protege-lo contra algo que o ameaça de forma intensa e perigosa. Dessa forma ele agarra-se ao controle de maneira obstinada. Mas, mesmo sendo um tratamento de difícil manejo, ainda assim é possível ter sucesso com esses pacientes quando utilizo as técnicas acima mencionadas.  

Além de conversar abertamente com o paciente sobre a natureza do seu transtorno, indico filmes onde um dos personagens interpreta alguém que é portador de TOC, para que o paciente possa, não só compreender melhor o que se passa com ele como também, construir um sentimento de que sua condição não é tão marginal assim, além de entender o efeito de suas ações sobre os demais. Geralmente os filmes ajudam os familiares dos pacientes a compreenderem melhor o que se passa com seu ente querido e muitas vezes,  ajuda até mesmo a modificar a dinâmica da família. Na minha opinião, o paciente é dono de seu processo e deve ter acesso a todas as informações que digam respeito à sua patologia para decidir como pode contribuir no sentido de livrar-se dela. 

Mario Quilici, psicanalista, é um pesquisador independente e ativo do desenvolvimento infantil e de como os distúrbios do vínculo entre os Bebês e seus pais podem levar ao surgimento de psicopatologias na medida que impedem um adequado desenvolvimento emocional e conseqüentemente da personalidade. Desenvolve trabalho clínico com adultos, casais e famílias bem como com orientação de pais. Dedica-se também ao estudo de   neuropsicologia e psiconeuroimunologia.

Fones:3256-1748/3256-4732

 
Mentes que Aprisionam
Reportagem de Paula Neiva e Karina Pastore

QUEM são e quem foram os transtornados históricos
TEXTO E PESQUISAFeito'm Vox
EDIÇÃO DIGITAL Vox-Lebon

Alguns relatos de vítimas muito famosas do TOC, o controverso Transtorno Obsessivo Compulsivo, nos últimos cinco séculos.

SANTO INÁCIO
(1491-1556)
Antes de se converter, o nobre espanhol Inácio de Loyola era um soldado extremamente vaidoso. Durante muito tempo, o fundador da Companhia de Jesus não conseguiu se livrar da culpa pela vida fútil do passado e desenvolveu a mania de confessar sempre os mesmos pecados. "Ele começava a recordar seus pecados e, como se estivessem atados a um fio, ia pensando de pecado em pecado, e lhe parecia de novo que estava obrigado a confessá-los outra vez", relatou o biógrafo de Santo Inácio, sobre a confissão feita no mosteiro beneditino de Montserrat, nos arredores de Barcelona, em meados do século XVI

SAMUEL JOHNSON
(1709-1784)
Escritor e ensaísta inglês, autor do livro Vidas dos Poetas Ingleses, só conseguia cruzar uma porta depois de cumprir um ritual complicadíssimo. Antes de passar pela soleira, Johnson tinha de dar um determinado número de passos em relação a um ponto que ele próprio estabelecia

FRANZ KAFKA
(1883-1924)
O autor de A Metamorfose, O Castelo e O Processo preocupava-se excessivamente com doenças. Para que o ar circulasse, o escritor checo dormia com as janelas abertas e usava roupas leves, mesmo durante o inverno. Paradoxalmente, Kafka cuidava muito pouco da própria saúde – característica típica das vítimas do transtorno obsessivo-compulsivo

VLADIMIR MAIAKOVSKI
(1893-1930)
Um dos principais representantes da poesia russa moderna, Maiakovski era acometido por rituais de limpeza. Tinha o costume de lavar as mãos várias vezes ao dia. O autor de Mistério Bufo, Os Banhos e O Percevejo era uma personalidade atormentada e acabou cometendo suicídio

HOWARD HUGHES
(1905-1976)
Com cerca de 50 anos, o magnata americano, amante de beldades como Katharine Hepburn, Lana Turner e Ava Gardner, começou a apresentar os primeiros sinais de seu medo obsessivo de ser contaminado por vírus e bactérias. Aos poucos Hughes foi se isolando numa redoma de assepsia, onde se julgava protegido das impurezas do "mundo lá fora". Seu carro era revestido de filtro antigermes. As salas e quartos de sua mansão passavam diariamente por um minucioso processo de limpeza. O pavor de Hughes era tanto que, em 1953, ele vendeu sua empresa de aviação e fundou o Howard Hughes Medical Institute, um dos maiores centros de pesquisas médicas do mundo. Morreu aos 70 anos sozinho e desnutrido

KURT GÖDEL
(1906-1978)
Desde criança, um dos mais importantes matemáticos do século XX e o melhor amigo de Albert Einstein tinha pavor de ficar doente. Vivia metido em pesados casacos de lã até dentro de casa, mesmo durante o verão. Tal qual sua mãe fazia, a mulher de Gödel o tratava como um menino frágil. Depois que ela morreu, o matemático austríaco parou de comer com medo de ser contaminado pela comida

GLENN GOULD
(1932-1982)
O pianista canadense, um dos mais revolucionários intérpretes de Bach, tinha pavor de ser infectado por vírus e bactérias. Por causa disso, evitava o contato humano e estava sempre de luvas, boné e cachecol. No auge da carreira, em 1964, a doença o afastou definitivamente dos palcos

Todo mundo tem lá suas manias: verificar se o gás está mesmo desligado, somar os números da placa do carro da frente, organizar certos objetos com simetria e por aí vai. O jogador e galã inglês David Beckham, por exemplo, além de colecionar namoradas indiscretas, tem o costume de guardar sempre em sua geladeira um número par de latinhas de refrigerante. As manias são uma espécie de atavismo. Sob a ótica das teorias evolucionistas, algumas delas foram essenciais para o desenvolvimento e a preservação da espécie humana. De nossos antepassados longínquos, sobreviveram os mais prudentes e precavidos.

– Justamente os "maníacos" por estocar alimentos, zelar pela prole e evitar as ameaças naturais. Ter uma ou outra mania, portanto, está dentro do quadro de normalidade. Elas nos tranqüilizam em relação a perigos, ajudam a organizar a rotina e até a passar o tempo.

Por diversos motivos, muitos dos quais ainda não totalmente esclarecidos pela ciência, as manias podem, no entanto, se transformar em doença. Chamado cientificamente de transtorno obsessivo-compulsivo, ou TOC, o mal ocupa o quarto lugar entre os distúrbios psiquiátricos mais freqüentes, com quase 7 milhões de vítimas no Brasil. Quem padece de TOC é acometido por pensamentos intrusivos ou idéias recorrentes e, para aliviar a angústia causada por essas obsessões, desenvolve comportamentos repetitivos – designados pelos médicos de rituais compulsivos. De todas as doenças da mente, o TOC é uma das que mais impingem sofrimento. Ele transforma seus portadores em "escravos de suas próprias idéias e ações", como define a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, autora do best-seller Mentes e Manias – Entendendo Melhor o Mundo das Pessoas Metódicas, Obsessivas e Compulsivas.

O pano de fundo para o TOC é um medo, assim como ocorre no caso dos fóbicos. Só que os portadores de fobias têm um medo irreal em relação a um objeto real – e evitam entrar em contato com o suposto perigo, para afastar uma crise. No caso dos obsessivo-compulsivos, é mais complicado. O que gera angústia é um pensamento que causa medo. Para se livrarem dele, adotam comportamentos compulsivos. Um dos quadros mais comuns do distúrbio é o que envolve o medo obsessivo de contaminação – um bom exemplo é o personagem de Jack Nicholson no filme Melhor É Impossível, que, entre outras manias, usava luvas quase o tempo todo, só comia com talheres descartáveis e não pisava nos rejuntes das calçadas. Alguns pacientes chegam a se lavar com produtos pesados de limpeza, como água sanitária e detergente, só porque encostaram em outra pessoa. Muitos não se contentam com um banho. Só se tranqüilizam depois de vários e longos banhos. "A diferença entre a mania saudável e a patológica é muito mais quantitativa do que qualitativa", afirma o psiquiatra Márcio Versiani, coordenador do Programa de Ansiedade e Depressão da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A doença se manifesta, enfim, quando as manias incapacitam para as atividades cotidianas.

As vítimas de TOC são como Sísifo, personagem do clássico Odisséia, poema épico de Homero. Como castigo por ter enganado Zeus, o deus dos deuses, Sísifo foi condenado a levar uma pedra enorme até o topo de uma montanha – para vê-la sempre rolar até o sopé e começar tudo de novo. Em O Mito de Sísifo: Ensaio sobre o Absurdo, o escritor francês Albert Camus (1913-1960) escreve: "Se esse mito é trágico, é porque o seu herói é consciente. Onde estaria a sua tortura se, a cada passo, a esperança de conseguir o ajudasse? Sísifo, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua miserável condição. É nela que pensa durante a sua descida". Os obsessivo-compulsivos têm consciência de que seus pensamentos e atitudes são completamente ilógicos. Ainda assim, como Sísifo, eles têm plena consciência de seu martírio, mas não conseguem se livrar da condenação imposta por suas mentes.

O impacto do TOC pode ser devastador. Depois de acompanhar cerca de 700 pacientes, médicos do Hospital Mount Sinai, em Nova York, concluíram que 70% deles tiveram suas relações familiares estraçalhadas pela mania patológica. Nove de cada dez obsessivo-compulsivos sofrem de baixa auto-estima. Não é de estranhar, portanto, que o transtorno freqüentemente se faça acompanhar de outros distúrbios psiquiátricos, sobretudo depressão, dependência do álcool e fobias específicas. Não bastasse a angústia provocada pela doença em si, o TOC faz com que o paciente carregue o peso da vergonha. Por isso, os doentes tendem a camuflar os sintomas e custam a procurar ajuda. "Entre o surgimento dos primeiros sinais e o diagnóstico de TOC, os pacientes levam, em média, dezessete anos", diz o psiquiatra Eurípedes Miguel, coordenador do Projeto Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo, da Universidade de São Paulo. "O problema é que, quanto mais tempo um paciente passa sem tratamento, mais os sintomas se intensificam."

Sem ajuda, a doença é incontrolável. "É uma luta inglória, com derrota garantida", define Ana Beatriz Barbosa Silva, no livro Mentes e Manias. Os pensamentos repetitivos e as idéias fixas acabam congestionando o cérebro. Todos os rituais a que os pacientes se submetem como forma de afastar as obsessões estimulam ainda mais esses pensamentos. O contrário também dá na mesma: se eles tentam não executar as tarefas que se impõem, as obsessões ficam mais fortes. O círculo é vicioso: as obsessões deflagram compulsões que reforçam as obsessões. Não raro, os rituais compulsivos não guardam nenhuma relação lógica com a obsessão que os origina. É infernal.

 

"Eu chorava de ódio de mim mesma porque não conseguia mais controlar meus pensamentos", lembra a atriz Luciana Vendramini, de 32 anos. Os primeiros sinais da doença surgiram em 1996. Nessa época, ela só conseguia dormir se visse um táxi amarelo passando na rua. Em seguida, ela passou a se deitar se visse dois táxis amarelos, um atrás do outro. Depois, os dois táxis amarelos e uma pessoa andando na direção oposta. Uma das características do transtorno é a mudança de manias ao longo do tempo. Foi o que aconteceu com Luciana. Houve um momento em que a atriz condicionava seus atos ao tipo de idéia que lhe vinha à cabeça. Para sair do banho, por exemplo, Luciana precisava "congelar um pensamento bom" na mente. Obviamente, nessas horas, ela só pensava em coisas ruins. Um dia seu pai teve de invadir o banheiro e tirá-la de lá à força. Fazia dez horas que Luciana estava no chuveiro. Ela também enfrentou uma situação complicada quando, em 1997, conseguiu uma participação no extinto programa Você Decide, da Rede Globo, depois de um bom tempo sem trabalhar. "Eu criava rituais para começar o dia que podiam se estender por muitas horas", diz. Com medo de se atrasar para as gravações do programa, ela simplesmente não dormia. Luciana tinha de cumprir várias "obrigações" para sair do quarto: acordava, pegava um colar com a imagem de São Bento, fazia o sinal-da-cruz, colocava o pé direito no chão, depois o esquerdo e tinha de sair do quarto com um pensamento bom na cabeça. Quando saía do quarto, ia para o banho e começava a se lavar – primeiro pelo lado direito do corpo. Nessa etapa, havia novamente a obrigação de formular um pensamento bom. No ápice da doença, a atriz perdia um dia inteiro nesse labirinto de obsessões e compulsões. Avessa a medicamentos, Luciana relutou muito até se convencer de que deveria tomar remédio. Há dois anos, ela conseguiu controlar suas manias. Às vezes, ainda sente uma compulsãozinha por lavar as mãos repetidas vezes, mas não se deixa levar. "A doença não me pega mais", diz. Depois de dois anos de tratamento, Luciana voltou aos palcos.

As causas do TOC ainda não foram totalmente desvendadas. Sabe-se que o transtorno tem componentes ambientais e genéticos. Graças ao desenvolvimento de máquinas capazes de flagrar o cérebro em funcionamento, descobriram-se algumas das áreas cerebrais que servem de sede para as obsessões e as compulsões. As duas principais delas, o córtex órbito-frontal e os gânglios da base, são responsáveis pelo processamento das informações recebidas e pelo controle do medo. Já foi estabelecido também o papel da substância serotonina no desenvolvimento da doença. Produzida no cérebro, a serotonina está associada às sensações de prazer e bem-estar. Por isso, o tratamento medicamentoso do TOC ganhou impulso no fim dos anos 80, quando surgiram os primeiros antidepressivos criados especificamente para manter um nível saudável de serotonina no cérebro – são os remédios da família do Prozac. Dos medicamentos antigos, os tricíclicos, são usados apenas aqueles cuja ação está concentrada na serotonina. O mais usado deles é a clomipramina, vendida sob o nome comercial de Anafranil. O TOC não tem cura, mas pode ser controlado. A combinação de antidepressivos com psicoterapia reduz em até 80% a manifestação dos sintomas. A terapia mais utilizada é a comportamental-cognitiva, em que o terapeuta tenta convencer o doente de que suas preocupações são infundadas. Para isso, ele não só usa argumentos lógicos, como expõe o paciente ao objeto de suas aflições. Os primeiros sinais de melhora começam a surgir entre duas e quatro semanas após o início do tratamento. A medicação é mantida por, ao menos, um ano. O objetivo é diminuir os riscos de recaída.

O TOC foi descrito pela primeira vez em 1838, pelo psiquiatra francês Jean-Étienne-Dominique Esquirol. O caso era o de Mademoiselle F., uma jovem de 18 anos que foi tomada pela aflição de que, um dia, ao visitar a tia, pudesse roubar-lhe algum pertence. Mais tarde, a moça passou a ser acometida por rituais de verificação. Filha de um comerciante, Mademoiselle F. gastava horas e mais horas fazendo e refazendo as contas da loja. Mesmo que os resultados conferissem, a jovem não se convencia. Suas aflições, pouco a pouco, foram aumentando. Ela começou a ter de lavar as mãos sempre que encostava em alguma coisa. Gastava mais de três horas com a higiene diária. Em seguida, passou a não sair mais de casa com medo de se sujar e cair doente. Na época, com muita propriedade, Esquirol usou a expressão "loucos razoáveis" para definir os obsessivo-compulsivos: "O paciente é constrangido a realizar atos (...) que sua consciência desaprova, mas sobre os quais ele não tem controle voluntário (...) É a monomania instintiva. Os monomaníacos têm sempre motivos mais ou menos plausíveis para se justificar".

O conceito de neurose obsessivo-compulsiva, no entanto, só seria concebido no início do século XX, por Sigmund Freud, o pai da psicanálise. Para ele, os pensamentos obsessivos e os rituais compulsivos surgem como resposta inconsciente a determinados desejos que levam a um estado de ansiedade. Por mais desconfortáveis que sejam os sintomas da obsessão e da compulsão, eles seriam menos incômodos do que enfrentar conscientemente as razões do tormento psíquico. O estudo clássico sobre a doença é O Homem dos Ratos, publicado em 1909. Nele, Freud conta a história de um jovem que vivia atormentado pela idéia de que seu pai ou a moça por quem era apaixonado pudessem ser vítimas do ataque de ratos. A obsessão pelo bicho surgiu depois de ele ouvir o relato de um tipo de tortura muito temido naquele tempo. O prisioneiro era amarrado nu, de bruços, com as pernas afastadas. Sobre as nádegas dele, o carrasco colocava, de cabeça para baixo, um balde cheio de ratos. Por meio de técnicas psicanalíticas que ainda estavam em seus primórdios, Freud descobriu que a obsessão do jovem paciente se relacionava ao desejo inconsciente que ele tinha de se opor às vontades do pai. "Ele resolveu esse conflito caindo doente. Assim, evitava resolvê-lo na vida real", escreveu Freud.

Alguns distúrbios psiquiátricos podem ser confundidos com o TOC, como o sexo compulsivo, o jogo patológico, a hipocondria, a bulimia e a anorexia, entre outros. A principal diferença é que os pacientes desses transtornos não têm consciência de que seus pensamentos e atitudes são absurdos. A anorexia, por exemplo, é caracterizada pela preocupação excessiva com o peso corporal e a quantidade de calorias ingeridas. Por mais que o paciente seja magro ou emagreça, ele sempre se vê como gordo e deixa de comer. Um obsessivo-compulsivo que desenvolve um ritual em que deixa de se alimentar não o faz porque se sente feio. Toma esse caminho para afastar de sua mente algum pensamento catastrófico. Além disso, ele tem consciência de que não comer faz mal. Prisioneiro de sua mente, no entanto, ele prefere passar fome a ter de pensar em coisas ruins.

Mesmo pessoas saudáveis são suscetíveis a apresentar traços (leves) de obsessão-compulsão em determinados momentos da vida. "Em situações de stress, elas tendem a ritualizar", afirma o psiquiatra Márcio Bernick, coordenador do Ambulatório de Ansiedade, da Universidade de São Paulo. A maioria dos que embarcam para o exterior tem a mania de, a caminho do aeroporto, conferir inúmeras vezes se o passaporte e a passagem não ficaram para trás. É, sem dúvida, um ritual compulsivo de verificação. Quem já se apaixonou sabe que a paixão é terreno fértil para as obsessões e as compulsões. Até a adolescência, a vida de meninos e meninas é marcada por rituais compulsivos que ajudam no desenvolvimento. As crianças pedem sempre para ouvir a mesma história, como uma forma de estabelecer uma rotina interna. Por volta dos 6 anos, dedicam-se a álbuns de figurinhas, coleções de carrinhos ou de bonecas, o que lhes propicia interagir com o mundo e aprender a desempenhar papéis sociais. Na idade adulta, certos sintomas podem aparecer, sobretudo entre as mulheres grávidas ou que acabaram de ter filho. No último mês de gestação e três meses depois do parto, não é incomum que as mães apresentem uma preocupação obsessiva em relação à criança. Naturais e esperados, os rituais de controlar se está tudo bem com o bebê são importantes para a segurança e a saúde física e emocional da criança.

A reviravolta hormonal e psicológica pela qual as mulheres passam durante o período de gravidez é tão acentuada que algumas das que têm predisposição genética à doença desenvolvem o transtorno a partir dessa fase da vida. Não há levantamentos estatísticos sobre o assunto, mas, segundo os médicos, a prática clínica mostra que um de cada três pacientes de TOC é mulher e apresenta os primeiros sintomas do mal durante ou logo após a gravidez. Nos outros doentes, o distúrbio aparece entre o final da adolescência e o início da idade adulta. Atinge homens e mulheres, ricos e pobres, ocidentais e orientais em igual proporção. A boa notícia é que a ciência hoje consegue manter o TOC sob controle. Ninguém mais está condenado a viver refém da própria mente.