Rio de Janeiro - 16/06/2004
A MANIA DO COTIDIANO
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TRANSTORNO
OBSESSIVO COMPULSIVO
Por
Mário Quilici
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Tem
sido comum falar dos Transtornos Obsessivos na mídia.
Não raro é que alguns leigos conheçam algo sobre as famosas
“compulsões” como, por exemplo, lavar as mãos repetidamente.
Isso quer dizer que hoje, os Transtornos Obsessivos são
bem estudados e conhecidos como também, existem inúmeras
opções de tratamento. Já existem muitas formas medicamentosas
de tratar alguns sintomas desse transtorno. Mas a psicoterapia
ainda é uma das formas mais eficientes.
Atualmente, com um grande número de pesquisadores vem
dedicando-se ao assunto. Dessa forma, temos hoje, uma
quantidade maior de informações e descrições sobre a doença
e seus sintomas . Mas devemos lembrar que foram os psicanalistas
que primeiramente descreveram essa patologia maiores detalhes.
Sigmund Freud, em sua época, descreveu alguns casos de
pacientes obsessivo-compulsivos. Um dos mais famosos é
o caso do “Homem dos Lobos”. Freud atribuía o surgimento
dos problemas obsessivos a um processo de autopunição
que o paciente utilizaria para controlar as pessoas que
viviam em torno dele. Isso é bem possível. Freud e seus
seguidores da época (especialmente Abrahan, Jones,
Rank e Menninger), acreditavam que a patologia obsessiva,
devia-se a uma fixação na fase anal (cujas características
são parcimônia, ordem e obstinação) do desenvolvimento
psicossexual. Freud falava também sobre a raiva excessiva
e conseqüentemente da culpa desses pacientes.
Muitas vezes percebemos uma confusão entre o Transtorno
Obsessivo e a Neurose obsessiva. Há uma distinção a ser
feita entre esses dois espectros da doença Obsessiva.
Para mim é controversa a diferença que se faz entre essas
duas entidades nosológicas (descrições das doenças). Há
quem afirme que, quando o processo obsessivo é ego distônico,
teremos uma Neurose Obsessiva Compulsiva. Quando os sintomas
forem ego sintônicos, teremos o Transtorno Obsessivo Compulsivo.
A mim não parece que essa diferença exista porque, mesmo
no TOC, Transtorno Obsessivo Compulsivo, os sintomas são
ego distônicos. E o paciente sofre muito com seus
sintomas que não são passíveis de controle.
Creio que há uma estrutura obsessiva compulsiva,
que atua tanto na neurose quanto no transtorno já
que na neurose obsessiva existe uma estrutura de caráter
subjacente obsessiva compulsiva que é comum ao TOC. Na
minha opinião, há apenas uma diferença de intensidade
ou, se ficar melhor, de gravidade, separando uma neurose
obsessiva de um transtorno obsessivo. Os dois processos
referem-se a transtornos relacionados com a ansiedade.
O
PACIENTE OBSESSIVO
Em geral esses pacientes empregam operações defensivas
muito peculiares, incluindo-se ai o isolamento de afeto,
intelectualização, formação reativa, anulação e deslocamento.
A formação reativa é um dos mecanismos característicos
da neurose obsessiva. Esse mecanismo de defesa, caracteriza-se
por um comportamento contrário a um desejo subjacente.
Por exemplo, a mania de limpeza num indivíduo seria uma
formação reativa contra o desejo de envolver-se com a
sujeira e seus derivados. O indivíduo ordeiro lutaria
contra um desejo de bagunçar tudo e o indivíduo religioso,
estaria lutando contra seus desejos maléficos.
O trabalho com esses pacientes é muito complicado por
causa de sua dificuldade, não só de expressar agressão
como também de reconhecer os reais sentimentos que estão
subjacentes às suas obsessões. Eles querem ter o completo
controle da vida e de sua raiva. São pessoas que fazem
deferências ou são obsequiosos com o objetivo de evitar
qualquer demonstração de seus sentimentos agressivos.
Em geral os indivíduos com Transtornos Obsessivos Compulsivos-TOC,
sofrem de grande insegurança por causa do rebaixamento
de auto-estima. A experiência infantil, como nos demais
Transtornos de Personalidade, aponta para um relacionamento
familiar onde os indivíduos foram desvalorizados, desprezados
e quando não, ridicularizados. Observa-se que tais pacientes
demonstram grandes anseios por dependência que não foram
preenchidos, e uma grande raiva dirigida aos pais
que não estiveram disponíveis quando foram necessários.
Essa necessidade de proteção e cuidados, entretanto, é
negada pelos paciente que fazem questão de repudiar qualquer
dependência que possam ter das pessoas mostrando
distanciamento, austeridade e individualismo.
FENOMENOLOGIA
Embora a literatura e a mídia tenham permitido que muitas
pessoas estejam familiarizadas com os sintomas típicos
do TOC, nós profissionais sabemos que existem muitos
sintomas que não são tão óbvios como aquelas compulsões
mostradas nas reportagens da mídia. Os principais sintomas
primários do TOC são: obsessões, compulsões e duvidas
constantes e infindáveis. O indivíduo nunca consegue decidir-se
por esse ou aquele comportamento e assim, depende dos
outros para tomar decisões, para ter uma crença ou mesmo
sobre seu futuro. Ele também parece não ter certeza do
que se passa com ele e por isto, está sempre aflito.
As obsessões em geral, são experimentadas como estranhas,
ou seja, ocupam o pensamento de forma que o indivíduo
não tem controle sobre elas. São extremamente perturbadoras
e portanto, ego distônicas. Tais obsessões podem se constituir
de pensamentos, imagens, melodias ou sons que são difíceis
quando não impossíveis, de serem repelidos. Por
exemplo: uma paciente tinha sempre imagens de um centro
de macumba que vinham acompanhadas das cantilenas características
e que lhe ocupavam a mente de forma intrusiva. Por
mais que ela tentasse desfazer-se do pensamento, não conseguia.
A paciente ficava em pânico. Os temas obsessivos podem
estar em torno da contaminação por micróbios, sexo, religião
e agressão. Em geral envolvem o pensamento mágico que
na minha opinião, são fantasias de compensação por situações
que feriram-nos. As idéias obsessivas são extremamente
rígidas.
Idéias rígidas são idéias obstinadas, estáveis e
carregadas afetivamente de maneira que são muito difíceis
de serem modificadas. As obsessões também podem se apresentar
como compulsões mentais. Em outras palavras, assim como
o paciente pode ter uma compulsão de lavar as mãos uma
infinidade de vezes durante o dia (compulsão motora),
ele pode utilizar-se do pensamento de controle
com o qual obtém algum alivio. Um exemplo disso é uma
paciente ainda jovem que tinha que pronunciar determinadas
palavras de trás para frente, para evitar que acidentes
acontecessem com sua família.
Existem também outras compulsões comuns (ou mais conhecidas)
como, por exemplo, lavar as mãos inúmeras vezes seguidas,
limpar a casa constante e desnecessariamente, lavar a
cabeça uma infinidade de vezes, conferir coisas, contar
e ordenar objetos, fazer a arrumação minuciosa de objetos
, contar objetos ou palavras, rezas ritualisticas, revisões
constantes de atos executados. Uma paciente saía de casa
e voltava uma infinidade de vezes para se certificar de
que não havia deixado a porta aberta. Um outro paciente
obsessivo detestava receber visitas em sua casa. Se alguma
de suas visitas tirasse uma peça da decoração do lugar,
ele entrava em desespero e só ficava tranqüilo, após ter
recolocado as coisas no exato lugar em que estavam originalmente.
Alguns objetos tinham uma marca quase que imperceptível
para que fossem sempre colocados no mesmo lugar.
Existem compulsões que parecem incomuns mas não são. São
as compulsões automutiladoras como, por exemplo,
coçar a pele até machucar, morder-se, cortar-se, roer
unha até sangrar os dedos, coprolalia (Impulso mórbido
que leva o indivíduo a proferir obscenidades), necessidade
de fazer coisas com o sentimento correto ou num determinado
momento, engolir a comida de determinada forma, cuspir,
tocar algum objeto etc. Uma paciente tinha o hábito de
"limpar"o rosto de suas acnes, com a unha. Estava sempre
com inflamações sérias na face.
A compulsão, tanto mental como motora, tem o objetivo
de desfazer ou neutralizar as obsessões. Por exemplo,
um paciente achava que ia levar um tiro na cabeça se não
tocasse um determinado tipo de madeira. Uma outra precisava
arrotar para que sua mãe não adoecesse. Pacientes de TOC
também podem demonstrar muitos sintomas secundários como
depressão (muito comum), fúria, perturbações perceptuais
e dificuldades sexuais. Freqüentemente a depressão é secundária
para o TOC. O sentimento de raiva, geralmente, só é
manifestado quando a alguém interfere com as compulsões
do indivíduo. Muitos pacientes acabam por agredir física
e verbalmente seus familiares porque eles se recusam a
cooperar na execução de uma compulsão ou por tentarem
impedir o paciente de se ocupar da compulsão. Uma paciente
chegava a agredir seus familiares que insistiam em abrir
fora de hora, as gavetas de uma cômoda que poderiam liberar
micróbios que iriam deixa-la doente.
NOVIDADES
NO CAMPO CIENTIFICO
Hoje, muitos estudos estão sendo feitos em todas as áreas
do psiquismo. E o TOC tem recebido atenção especial de
alguns grupos de pesquisadores. Mas o que vem surpreendendo
é que, algumas condições mórbidas que antes pareciam
entidades nosológicas (nosologia: ramo da medicina que
estuda, classifica e descreve doenças), com existência
própria, agora começam a dar sinais de que podem estar
ligadas ao TOC.
Alguns pesquisadores afirmam que a Síndrome de Tourette
e a Anorexia Nervosa estão relacionados ao TOC. A anorexia
Nervosa, eu não sei, mas, a Síndrome de Tourette tem muitas
características próximas do TOC. Existem outras condições
que estão sendo relacionadas ao TOC, como por exemplo,
automutilação, as epilepsias e as encefalites. Serão necessários
muitos estudos ainda, para que possamos definir de fato
se tais patologias são ou não parte do TOC.
Recentemente, Yaryura-Tobias e colaboradores (1996) notaram
que certas desordens têm uma alta probabilidade de ocorrência
nos pacientes com TOC. Por exemplo, eles acreditam que
os pacientes de TOC, geralmente têm uma alta probabilidade
de terem tiques nervosos, desordens somatoformes, desordens
de humor ou alguma desordem de ansiedade. O TOC é um transtorno
de ansiedade por definição e assim, as afirmações desses
pesquisadores, neste sentido, não acrescentam muito. Talvez
o mais interessante seria sabermos se as epilepsias e
as encefalites podem estar relacionadas ao TOC.
Gostaríamos de centrar nossos esforços em três desordens
que, de acordo com minha experiência, surgem nos indivíduos
com TOC: dismorfia, hipocondria e tricotilomania.
DISMORFIA
Fenomenologicamente, os dismórficos de corpo apresentam
dois sintomas primários de TOC: obsessões e compulsões.
Morselli (1891) usou o termo dismorfia para explicar um
sentimento subjetivo de deformidade corporal, apesar da
pessoa ser fisicamente normal. Além da dúvida patológica
acerca da deformidade corporal, esse tipo de indivíduo
tem noção de sua percepção inadequada . A maioria desses
pacientes exibem uma grande quantidade de idéias rígidas.
Creio que, nesse aspecto, as observações de Yaryura-Tobias
são pertinentes com minhas observações práticas. Pacientes
com TOC, geralmente apresentam idéias de deformação física
que não existem. Uma paciente jovem e muito bonita, gastava
uma grande quantidade de dinheiro com tratamentos estéticos
para eliminar uma barriga que não existia.
Nossa compreensão sobre a dismorfia ainda é muito precária.
Geralmente os dismórficos preocupam-se com a face, o cabelo,
a pele, o nariz e olhos. Por exemplo, a obsessão com deformidades
imaginárias na pele, podem levar o paciente a gastar verdadeiras
fortunas com tratamentos estéticos, produtos de beleza
e dermatologistas, enquanto eles, ironicamente, continuam
ferindo-se (cutucando) e deixando cicatrizes por onde
seus dedos destruidores passam. Para aqueles que se interessarem
mais pelo assunto, uma revisão interessante desta desordem
foi feita por Phillips (1996) e Yaryura-Tobias e Neziroglu
(1996).
HIPOCONDRIA
O cerne da hipocondria é o medo obsessivo de ter uma doença
grave. Para isso o individuo interpreta erroneamente sinais
corporais e sintomas. Pacientes hipocondríacos geralmente
buscam reafirmações de sua saúde com muita freqüência
e esse comportamento nos lembra as compulsões presentes
no TOC. É normal que tais pacientes fiquem observando
seus corpos obsessivamente em busca de sinais de doenças.
O paciente que citamos acima e que se preocupava os objetos
de decoração fora do lugar, tinha uma obsessão com sua
saúde. Se o paciente tinha uma espinha entrava em pânico.
Ia ao dermatologista e depois, fazia curativos com esparadrapos
da cor da pele, recortando-os de tal forma, que cobriam
exatamente as dimensões da espinha. Tinha receio que as
espinhas fossem sinais de câncer.
Segundo Yaryura-Tobias (1996), uma das doenças características
desses pacientes é a Síndrome de Cólon Irritável (Cólon:
Porção média do intestino grosso que termina no reto).
A grande maioria dos sintomas relatados por esses pacientes,
são normais e transitórios nas pessoas saudáveis. Em geral,
o paciente hipocondríaco parece mais interessado na autenticidade
do problema que propõe, do que no significado etiológico
dos sintomas ou com a sensação desagradável ou dor. Em
outras palavras, o paciente hipocondríaco que se queixa
de dores de cabeça, está mais preocupado com o "tumor"
que está causando a sua dor de cabeça, do que com a dor
propriamente dita.
TRICOTILOMANIA
A Tricotilomania é o ato mórbido de puxar e arrancar
continuamente os cabelos. É uma forma bem clara de automutilação.
Esse tipo de paciente se ocupa de puxar periodicamente
pequenas quantidades de cabelos o que resulta numa perda
notável. Em geral esses pacientes ficam intensamente ansiosos
se não cederem à compulsão de puxar o cabelo e sentem
que a ansiedade se reduz depois de executarem o ato. Eles
puxam os cabelos em pequenas quantidades. Existe uma certa
controvérsia entre os cientistas sobre a inclusão ou não
da tricotilomania no TOC. Mas me parece que, independente
de ser uma atividade que implique ou não no surgimento
da ansiedade, é uma atividade compulsiva porque não pode
ser evitada e assim, está dentro do que chamamos de TOC.
O
TRATAMENTO
O tratamento do Transtorno de Personalidade em geral,
deve ser feito com psicoterapia e, dependendo da gravidade,
com medicamentos que geralmente é utilizado para
o controle da depressão e da ansiedade que inevitavelmente
e surgem nesse tipo de paciente. É extremamente importante
que um diagnóstico correto seja feito, ou
seja, onde o TOC esteja bem diferenciado da Esquizofrenia
e de Transtorno Bipolar. No tratamento com esse
tipo de paciente, acho que a base psicanalítica é de fundamental
importância. É necessário que uma aliança terapêutica
solida seja estabelecida com o paciente para que, através
da transferência as modificações podem ser obtidas. Sempre
utilizo com bons resultados a psicanálise e algumas técnicas
cognitivas.
O trabalho com esse tipo de paciente nunca é fácil dada
a natureza do transtorno. Mesmo que os sintomas sejam
ego distônicos e o paciente saiba que aquilo não está
de acordo com sua vontade consciente, ele tem dificuldades
de atuar em seu próprio beneficio. O controle tem uma
função de protege-lo contra algo que o ameaça de forma
intensa e perigosa. Dessa forma ele agarra-se ao controle
de maneira obstinada. Mas, mesmo sendo um tratamento de
difícil manejo, ainda assim é possível ter sucesso com
esses pacientes quando utilizo as técnicas acima mencionadas.
Além de conversar abertamente com o paciente sobre a natureza
do seu transtorno, indico filmes onde um dos personagens
interpreta alguém que é portador de TOC, para que o paciente
possa, não só compreender melhor o que se passa com ele
como também, construir um sentimento de que sua condição
não é tão marginal assim, além de entender o efeito de
suas ações sobre os demais. Geralmente os filmes ajudam
os familiares dos pacientes a compreenderem melhor o que
se passa com seu ente querido e muitas vezes, ajuda
até mesmo a modificar a dinâmica da família. Na minha
opinião, o paciente é dono de seu processo e deve ter
acesso a todas as informações que digam respeito à sua
patologia para decidir como pode contribuir no sentido
de livrar-se dela.
|
| Mario Quilici, psicanalista, é um pesquisador independente
e ativo do desenvolvimento infantil e de como os distúrbios
do vínculo entre os Bebês e seus pais podem levar ao
surgimento de psicopatologias na medida que impedem
um adequado desenvolvimento emocional e conseqüentemente
da personalidade. Desenvolve trabalho clínico com adultos,
casais e famílias bem como com orientação de pais. Dedica-se
também ao estudo de neuropsicologia e psiconeuroimunologia.
Fones:3256-1748/3256-4732 |
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Mentes que Aprisionam |
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Reportagem
de Paula Neiva e Karina Pastore |
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QUEM são e quem foram os transtornados históricos
TEXTO E PESQUISAFeito'm Vox
EDIÇÃO DIGITAL Vox-Lebon
Alguns
relatos de vítimas muito famosas do TOC,
o controverso Transtorno Obsessivo Compulsivo,
nos últimos cinco séculos.
SANTO
INÁCIO
(1491-1556)
Antes
de se converter, o nobre espanhol Inácio
de Loyola era um soldado extremamente vaidoso.
Durante muito tempo, o fundador da Companhia
de Jesus não conseguiu se livrar da culpa
pela vida fútil do passado e desenvolveu
a mania de confessar sempre os mesmos pecados.
"Ele começava a recordar seus pecados e,
como se estivessem atados a um fio, ia pensando
de pecado em pecado, e lhe parecia de novo
que estava obrigado a confessá-los outra
vez", relatou o biógrafo de Santo Inácio,
sobre a confissão feita no mosteiro beneditino
de Montserrat, nos arredores de Barcelona,
em meados do século XVI
SAMUEL
JOHNSON
(1709-1784)
Escritor e ensaísta inglês, autor do
livro Vidas dos Poetas Ingleses, só conseguia
cruzar uma porta depois de cumprir um ritual
complicadíssimo. Antes de passar pela soleira,
Johnson tinha de dar um determinado número
de passos em relação a um ponto que ele
próprio estabelecia
FRANZ
KAFKA
(1883-1924)
O autor de A Metamorfose, O Castelo
e O Processo preocupava-se excessivamente
com doenças. Para que o ar circulasse, o
escritor checo dormia com as janelas abertas
e usava roupas leves, mesmo durante o inverno.
Paradoxalmente, Kafka cuidava muito pouco
da própria saúde – característica típica
das vítimas do transtorno obsessivo-compulsivo
VLADIMIR
MAIAKOVSKI
(1893-1930)
Um dos principais representantes da poesia
russa moderna, Maiakovski era acometido
por rituais de limpeza. Tinha o costume
de lavar as mãos várias vezes ao dia. O
autor de Mistério Bufo, Os Banhos e O Percevejo
era uma personalidade atormentada e acabou
cometendo suicídio
HOWARD
HUGHES
(1905-1976)
Com cerca de 50 anos, o magnata americano,
amante de beldades como Katharine Hepburn,
Lana Turner e Ava Gardner, começou a apresentar
os primeiros sinais de seu medo obsessivo
de ser contaminado por vírus e bactérias.
Aos poucos Hughes foi se isolando numa redoma
de assepsia, onde se julgava protegido das
impurezas do "mundo lá fora". Seu carro
era revestido de filtro antigermes. As salas
e quartos de sua mansão passavam diariamente
por um minucioso processo de limpeza. O
pavor de Hughes era tanto que, em 1953,
ele vendeu sua empresa de aviação e fundou
o Howard Hughes Medical Institute, um dos
maiores centros de pesquisas médicas do
mundo. Morreu aos 70 anos sozinho e desnutrido
KURT
GÖDEL
(1906-1978)
Desde criança, um dos mais importantes
matemáticos do século XX e o melhor amigo
de Albert Einstein tinha pavor de ficar
doente. Vivia metido em pesados casacos
de lã até dentro de casa, mesmo durante
o verão. Tal qual sua mãe fazia, a mulher
de Gödel o tratava como um menino frágil.
Depois que ela morreu, o matemático austríaco
parou de comer com medo de ser contaminado
pela comida
GLENN
GOULD
(1932-1982)
O pianista canadense, um dos mais revolucionários
intérpretes de Bach, tinha pavor de ser
infectado por vírus e bactérias. Por causa
disso, evitava o contato humano e estava
sempre de luvas, boné e cachecol. No auge
da carreira, em 1964, a doença o afastou
definitivamente dos palcos
|
Todo
mundo tem lá suas manias: verificar
se o gás está mesmo desligado,
somar os números da placa do carro
da frente, organizar certos objetos com
simetria e por aí vai. O jogador
e galã inglês David Beckham,
por exemplo, além de colecionar namoradas
indiscretas, tem o costume de guardar sempre
em sua geladeira um número par de
latinhas de refrigerante. As manias são
uma espécie de atavismo. Sob a ótica
das teorias evolucionistas, algumas delas
foram essenciais para o desenvolvimento
e a preservação da espécie
humana. De nossos antepassados longínquos,
sobreviveram os mais prudentes e precavidos.
– Justamente os "maníacos"
por estocar alimentos, zelar pela prole
e evitar as ameaças naturais. Ter
uma ou outra mania, portanto, está
dentro do quadro de normalidade. Elas nos
tranqüilizam em relação
a perigos, ajudam a organizar a rotina e
até a passar o tempo.
Por
diversos motivos, muitos dos quais ainda
não totalmente esclarecidos pela
ciência, as manias podem, no entanto,
se transformar em doença. Chamado
cientificamente de transtorno obsessivo-compulsivo,
ou TOC, o mal ocupa o quarto lugar entre
os distúrbios psiquiátricos
mais freqüentes, com quase 7 milhões
de vítimas no Brasil. Quem padece
de TOC é acometido por pensamentos
intrusivos ou idéias recorrentes
e, para aliviar a angústia causada
por essas obsessões, desenvolve comportamentos
repetitivos – designados pelos médicos
de rituais compulsivos. De todas as doenças
da mente, o TOC é uma das que mais
impingem sofrimento. Ele transforma seus
portadores em "escravos de suas próprias
idéias e ações",
como define a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa
Silva, autora do best-seller Mentes e Manias
– Entendendo Melhor o Mundo das Pessoas
Metódicas, Obsessivas e Compulsivas.
O
pano de fundo para o TOC é um medo,
assim como ocorre no caso dos fóbicos.
Só que os portadores de fobias têm
um medo irreal em relação
a um objeto real – e evitam entrar
em contato com o suposto perigo, para afastar
uma crise. No caso dos obsessivo-compulsivos,
é mais complicado. O que gera angústia
é um pensamento que causa medo. Para
se livrarem dele, adotam comportamentos
compulsivos. Um dos quadros mais comuns
do distúrbio é o que envolve
o medo obsessivo de contaminação
– um bom exemplo é o personagem
de Jack Nicholson no filme Melhor É
Impossível, que, entre outras manias,
usava luvas quase o tempo todo, só
comia com talheres descartáveis e
não pisava nos rejuntes das calçadas.
Alguns pacientes chegam a se lavar com produtos
pesados de limpeza, como água sanitária
e detergente, só porque encostaram
em outra pessoa. Muitos não se contentam
com um banho. Só se tranqüilizam
depois de vários e longos banhos.
"A diferença entre a mania saudável
e a patológica é muito mais
quantitativa do que qualitativa", afirma
o psiquiatra Márcio Versiani, coordenador
do Programa de Ansiedade e Depressão
da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
A doença se manifesta, enfim, quando
as manias incapacitam para as atividades
cotidianas.
As
vítimas de TOC são como Sísifo,
personagem do clássico Odisséia,
poema épico de Homero. Como castigo
por ter enganado Zeus, o deus dos deuses,
Sísifo foi condenado a levar uma
pedra enorme até o topo de uma montanha
– para vê-la sempre rolar até
o sopé e começar tudo de novo.
Em O Mito de Sísifo: Ensaio sobre
o Absurdo, o escritor francês Albert
Camus (1913-1960) escreve: "Se esse
mito é trágico, é porque
o seu herói é consciente.
Onde estaria a sua tortura se, a cada passo,
a esperança de conseguir o ajudasse?
Sísifo, impotente e revoltado, conhece
toda a extensão de sua miserável
condição. É nela que
pensa durante a sua descida". Os obsessivo-compulsivos
têm consciência de que seus
pensamentos e atitudes são completamente
ilógicos. Ainda assim, como Sísifo,
eles têm plena consciência de
seu martírio, mas não conseguem
se livrar da condenação imposta
por suas mentes.
O
impacto do TOC pode ser devastador. Depois
de acompanhar cerca de 700 pacientes, médicos
do Hospital Mount Sinai, em Nova York, concluíram
que 70% deles tiveram suas relações
familiares estraçalhadas pela mania
patológica. Nove de cada dez obsessivo-compulsivos
sofrem de baixa auto-estima. Não
é de estranhar, portanto, que o transtorno
freqüentemente se faça acompanhar
de outros distúrbios psiquiátricos,
sobretudo depressão, dependência
do álcool e fobias específicas.
Não bastasse a angústia provocada
pela doença em si, o TOC faz com
que o paciente carregue o peso da vergonha.
Por isso, os doentes tendem a camuflar os
sintomas e custam a procurar ajuda. "Entre
o surgimento dos primeiros sinais e o diagnóstico
de TOC, os pacientes levam, em média,
dezessete anos", diz o psiquiatra Eurípedes
Miguel, coordenador do Projeto Transtornos
do Espectro Obsessivo-Compulsivo, da Universidade
de São Paulo. "O problema é
que, quanto mais tempo um paciente passa
sem tratamento, mais os sintomas se intensificam."
Sem
ajuda, a doença é incontrolável.
"É uma luta inglória,
com derrota garantida", define Ana
Beatriz Barbosa Silva, no livro Mentes e
Manias. Os pensamentos repetitivos e as
idéias fixas acabam congestionando
o cérebro. Todos os rituais a que
os pacientes se submetem como forma de afastar
as obsessões estimulam ainda mais
esses pensamentos. O contrário também
dá na mesma: se eles tentam não
executar as tarefas que se impõem,
as obsessões ficam mais fortes. O
círculo é vicioso: as obsessões
deflagram compulsões que reforçam
as obsessões. Não raro, os
rituais compulsivos não guardam nenhuma
relação lógica com
a obsessão que os origina. É
infernal.
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"Eu
chorava de ódio de mim mesma porque
não conseguia mais controlar meus
pensamentos", lembra a atriz Luciana
Vendramini, de 32 anos. Os primeiros sinais
da doença surgiram em 1996. Nessa
época, ela só conseguia dormir
se visse um táxi amarelo passando
na rua. Em seguida, ela passou a se deitar
se visse dois táxis amarelos, um
atrás do outro. Depois, os dois táxis
amarelos e uma pessoa andando na direção
oposta. Uma das características do
transtorno é a mudança de
manias ao longo do tempo. Foi o que aconteceu
com Luciana. Houve um momento em que a atriz
condicionava seus atos ao tipo de idéia
que lhe vinha à cabeça. Para
sair do banho, por exemplo, Luciana precisava
"congelar um pensamento bom" na
mente. Obviamente, nessas horas, ela só
pensava em coisas ruins. Um dia seu pai
teve de invadir o banheiro e tirá-la
de lá à força. Fazia
dez horas que Luciana estava no chuveiro.
Ela também enfrentou uma situação
complicada quando, em 1997, conseguiu uma
participação no extinto programa
Você Decide, da Rede Globo, depois
de um bom tempo sem trabalhar. "Eu
criava rituais para começar o dia
que podiam se estender por muitas horas",
diz. Com medo de se atrasar para as gravações
do programa, ela simplesmente não
dormia. Luciana tinha de cumprir várias
"obrigações" para
sair do quarto: acordava, pegava um colar
com a imagem de São Bento, fazia
o sinal-da-cruz, colocava o pé direito
no chão, depois o esquerdo e tinha
de sair do quarto com um pensamento bom
na cabeça. Quando saía do
quarto, ia para o banho e começava
a se lavar – primeiro pelo lado direito
do corpo. Nessa etapa, havia novamente a
obrigação de formular um pensamento
bom. No ápice da doença, a
atriz perdia um dia inteiro nesse labirinto
de obsessões e compulsões.
Avessa a medicamentos, Luciana relutou muito
até se convencer de que deveria tomar
remédio. Há dois anos, ela
conseguiu controlar suas manias. Às
vezes, ainda sente uma compulsãozinha
por lavar as mãos repetidas vezes,
mas não se deixa levar. "A doença
não me pega mais", diz. Depois
de dois anos de tratamento, Luciana voltou
aos palcos.
As
causas do TOC ainda não foram totalmente
desvendadas. Sabe-se que o transtorno tem
componentes ambientais e genéticos.
Graças ao desenvolvimento de máquinas
capazes de flagrar o cérebro em funcionamento,
descobriram-se algumas das áreas
cerebrais que servem de sede para as obsessões
e as compulsões. As duas principais
delas, o córtex órbito-frontal
e os gânglios da base, são
responsáveis pelo processamento das
informações recebidas e pelo
controle do medo. Já foi estabelecido
também o papel da substância
serotonina no desenvolvimento da doença.
Produzida no cérebro, a serotonina
está associada às sensações
de prazer e bem-estar. Por isso, o tratamento
medicamentoso do TOC ganhou impulso no fim
dos anos 80, quando surgiram os primeiros
antidepressivos criados especificamente
para manter um nível saudável
de serotonina no cérebro –
são os remédios da família
do Prozac. Dos medicamentos antigos, os
tricíclicos, são usados apenas
aqueles cuja ação está
concentrada na serotonina. O mais usado
deles é a clomipramina, vendida sob
o nome comercial de Anafranil. O TOC não
tem cura, mas pode ser controlado. A combinação
de antidepressivos com psicoterapia reduz
em até 80% a manifestação
dos sintomas. A terapia mais utilizada é
a comportamental-cognitiva, em que o terapeuta
tenta convencer o doente de que suas preocupações
são infundadas. Para isso, ele não
só usa argumentos lógicos,
como expõe o paciente ao objeto de
suas aflições. Os primeiros
sinais de melhora começam a surgir
entre duas e quatro semanas após
o início do tratamento. A medicação
é mantida por, ao menos, um ano.
O objetivo é diminuir os riscos de
recaída.
O
TOC foi descrito pela primeira vez em 1838,
pelo psiquiatra francês Jean-Étienne-Dominique
Esquirol. O caso era o de Mademoiselle F.,
uma jovem de 18 anos que foi tomada pela
aflição de que, um dia, ao
visitar a tia, pudesse roubar-lhe algum
pertence. Mais tarde, a moça passou
a ser acometida por rituais de verificação.
Filha de um comerciante, Mademoiselle F.
gastava horas e mais horas fazendo e refazendo
as contas da loja. Mesmo que os resultados
conferissem, a jovem não se convencia.
Suas aflições, pouco a pouco,
foram aumentando. Ela começou a ter
de lavar as mãos sempre que encostava
em alguma coisa. Gastava mais de três
horas com a higiene diária. Em seguida,
passou a não sair mais de casa com
medo de se sujar e cair doente. Na época,
com muita propriedade, Esquirol usou a expressão
"loucos razoáveis" para
definir os obsessivo-compulsivos: "O
paciente é constrangido a realizar
atos (...) que sua consciência desaprova,
mas sobre os quais ele não tem controle
voluntário (...) É a monomania
instintiva. Os monomaníacos têm
sempre motivos mais ou menos plausíveis
para se justificar".
O
conceito de neurose obsessivo-compulsiva,
no entanto, só seria concebido no
início do século XX, por Sigmund
Freud, o pai da psicanálise. Para
ele, os pensamentos obsessivos e os rituais
compulsivos surgem como resposta inconsciente
a determinados desejos que levam a um estado
de ansiedade. Por mais desconfortáveis
que sejam os sintomas da obsessão
e da compulsão, eles seriam menos
incômodos do que enfrentar conscientemente
as razões do tormento psíquico.
O estudo clássico sobre a doença
é O Homem dos Ratos, publicado em
1909. Nele, Freud conta a história
de um jovem que vivia atormentado pela idéia
de que seu pai ou a moça por quem
era apaixonado pudessem ser vítimas
do ataque de ratos. A obsessão pelo
bicho surgiu depois de ele ouvir o relato
de um tipo de tortura muito temido naquele
tempo. O prisioneiro era amarrado nu, de
bruços, com as pernas afastadas.
Sobre as nádegas dele, o carrasco
colocava, de cabeça para baixo, um
balde cheio de ratos. Por meio de técnicas
psicanalíticas que ainda estavam
em seus primórdios, Freud descobriu
que a obsessão do jovem paciente
se relacionava ao desejo inconsciente que
ele tinha de se opor às vontades
do pai. "Ele resolveu esse conflito
caindo doente. Assim, evitava resolvê-lo
na vida real", escreveu Freud.
Alguns
distúrbios psiquiátricos podem
ser confundidos com o TOC, como o sexo compulsivo,
o jogo patológico, a hipocondria,
a bulimia e a anorexia, entre outros. A
principal diferença é que
os pacientes desses transtornos não
têm consciência de que seus
pensamentos e atitudes são absurdos.
A anorexia, por exemplo, é caracterizada
pela preocupação excessiva
com o peso corporal e a quantidade de calorias
ingeridas. Por mais que o paciente seja
magro ou emagreça, ele sempre se
vê como gordo e deixa de comer. Um
obsessivo-compulsivo que desenvolve um ritual
em que deixa de se alimentar não
o faz porque se sente feio. Toma esse caminho
para afastar de sua mente algum pensamento
catastrófico. Além disso,
ele tem consciência de que não
comer faz mal. Prisioneiro de sua mente,
no entanto, ele prefere passar fome a ter
de pensar em coisas ruins.
Mesmo
pessoas saudáveis são suscetíveis
a apresentar traços (leves) de obsessão-compulsão
em determinados momentos da vida. "Em
situações de stress, elas
tendem a ritualizar", afirma o psiquiatra
Márcio Bernick, coordenador do Ambulatório
de Ansiedade, da Universidade de São
Paulo. A maioria dos que embarcam para o
exterior tem a mania de, a caminho do aeroporto,
conferir inúmeras vezes se o passaporte
e a passagem não ficaram para trás.
É, sem dúvida, um ritual compulsivo
de verificação. Quem já
se apaixonou sabe que a paixão é
terreno fértil para as obsessões
e as compulsões. Até a adolescência,
a vida de meninos e meninas é marcada
por rituais compulsivos que ajudam no desenvolvimento.
As crianças pedem sempre para ouvir
a mesma história, como uma forma
de estabelecer uma rotina interna. Por volta
dos 6 anos, dedicam-se a álbuns de
figurinhas, coleções de carrinhos
ou de bonecas, o que lhes propicia interagir
com o mundo e aprender a desempenhar papéis
sociais. Na idade adulta, certos sintomas
podem aparecer, sobretudo entre as mulheres
grávidas ou que acabaram de ter filho.
No último mês de gestação
e três meses depois do parto, não
é incomum que as mães apresentem
uma preocupação obsessiva
em relação à criança.
Naturais e esperados, os rituais de controlar
se está tudo bem com o bebê
são importantes para a segurança
e a saúde física e emocional
da criança.
A
reviravolta hormonal e psicológica
pela qual as mulheres passam durante o período
de gravidez é tão acentuada
que algumas das que têm predisposição
genética à doença desenvolvem
o transtorno a partir dessa fase da vida.
Não há levantamentos estatísticos
sobre o assunto, mas, segundo os médicos,
a prática clínica mostra que
um de cada três pacientes de TOC é
mulher e apresenta os primeiros sintomas
do mal durante ou logo após a gravidez.
Nos outros doentes, o distúrbio aparece
entre o final da adolescência e o
início da idade adulta. Atinge homens
e mulheres, ricos e pobres, ocidentais e
orientais em igual proporção.
A boa notícia é que a ciência
hoje consegue manter o TOC sob controle.
Ninguém mais está condenado
a viver refém da própria mente.
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