| Inteligência
Artificial
Complexidade
do cérebro é desafio para máquinas pensantes
Chip
Walter
Discover
Kwabena
Boahen, o principal pesquisador do Laboratório de Pesquisa
de Neuro-Engenharia da Universidade da Pensilvânia, tem
uma relação de amor e ódio com a matéria
cinzenta que tem entre as orelhas.
Ele
admira ardentemente a sutileza do projeto do cérebro:
"Muito elegante e muito mais eficiente do qualquer coisa
que eu poderia desenvolver", diz.
Mas
para um engenheiro a admiração não é
o bastante; ele e seus colegas querem compreender os mecanismos
do cérebro e recriar suas funções em um
laboratório.
Nesse
esforço, a natureza elaborada da programação
neuronal que transforma correntes elétricas em pensamentos
e percepções é uma fonte de frustração
infinda. "Todos esbarram de frente com a questão
da complexidade", diz Boahen.
O
famoso matemático Alan Turing previu em 1950 que os computadores
seriam capazes de se equiparar à inteligência humana
pelo final do século.
Nas
décadas que se seguiram, os pesquisadores no novo campo
da inteligência artificial trabalharam duro para cumprir
essa profecia, em geral adotando uma estratégia de cima
para baixo: se pudermos escrever um volume suficiente de códigos,
arrazoavam, seremos capazes de simular todas as funções
do cérebro.
Os
resultados foram lastimáveis. O rápido progresso
no poder de computação não resultou em
nada que se assemelhe a uma máquina de pensar capaz de
compor música ou administrar uma empresa, muito menos
desvendar os segredos da consciência.
Boahen
está tentando uma solução diferente. Em
lugar de impor software pseudo-inteligente em um chip convencional
de silício, ele está estudando a maneira pela
qual os neurônios humanos se interconectam. Depois, espera
construir sistemas eletrônicos que recriem os resultados.
Em resumo, ele está tentando fazer uma engenharia reversa
do cérebro, de baixo para cima.
Robert
Noyce, co-inventor do circuito integrado, foi o primeiro a sugerir
essa abordagem, em 1984.
"A
fim de compreender o cérebro, nós temos usado
o computador como modelo para ele. Talvez seja hora de reverter
esse raciocínio. Para compreender em que direção
deveríamos avançar com os computadores, deveríamos
procurar pistas no cérebro", disse.
Carver
Mead, inventor do circuito de integração em escala
muito grande usado nos produtos eletrônicos domésticos
atuais, não demorou muito a aceitar o desafio, e começou
a construir circuitos simples que imitam as conexões
neurais associadas à visão, um esforço
que ele classifica como engenharia neuromórfica. Em 1990,
Boahen, então aluno de pós-graduação
de Mead, se integrou à equipe que trabalhava nesse projeto.
Para
grande surpresa deles, Boahen e seus colegas engenheiros neuromórficos
estão agora descobrindo que as estruturas subjacentes
do cérebro são muito mais simples do que os comportamentos,
percepções e sentimentos que elas incitam.
Isso
se deve ao fato de que os nossos cérebros, diferentemente
dos computadores pessoais, constantemente alteram suas conexões,
de forma a reformular a maneira pela qual processam informações.
"Agora
temos microscópios que podem ver as conexões individuais
entre os neurônios. Eles demonstram que o cérebro
pode retraçar conexões e criar conexões
novas em questão de minutos. O cérebro lida com
a complexidade se cabeando no calor do momento, baseado na atividade
que acontece em torno dele", diz Boahen.
Isso
ajuda a explicar porque um quilo e meio de neurônios,
usando pouco mais energia do que uma lâmpada fraca, são
capazes de executar todas as operações associadas
ao pensamento humano.
Boahen
acredita que as tentativas anteriores de obter inteligência
artificial foram vãs porque os cientistas não
levaram em conta essa extraordinária flexibilidade que
é parte natural do cérebro.
"A
fim de lidar com a complexidade, temos de descobrir de que maneira
fazer que as coisas se conectem por si sós", diz.
divulgação |
 |
Chip
retinomórfico, que tenta reproduzir funções
da retina humana (acima) |
A
solução que propõe é criar chips
capazes de se reprogramar em resposta às informações
que recebam. Como os neurônios do cérebro, eles
eliminariam as velhas conexões e criariam novas sempre
que precisassem.
Diferentemente
do cérebro, os chips não poderiam literalmente
alterar sua fiação. Em lugar disso, dependeriam
de um roteador que separe a informação e decida
que percurso informacional ela deveria seguir.
O
primeiro produto do laboratório de Boahen é um
chip retinomórfico, que ele agora está submetendo
a uma bateria de testes simples de visão.
Contendo
cerca de seis mil foto-receptores e quatro mil conexões
nervosas sintéticas, o chip tem cerca de um oitavo do
tamanho de uma retina humana. Igualmente impressionante, o chip
consome apenas 0,06 watt de energia, o que o torna cerca de
três vezes mais eficiente que sua versão real.
Um
computador digital de propósitos gerais, em contraste,
usa um milhão de vezes mais energia por cálculo
do que o cérebro humano.
"Construir
próteses neurais requer que atinjamos eficiência
semelhante, e não apenas desempenho semelhante, ao do
cérebro", disse Boahen.
Um
chip de retina poderia ser montado dentro de um globo ocular
em um ano ou dois, diz, depois que os engenheiros resolverem
os desafios restantes, de construir uma conexão eficiente
entre o chip e os seres humanos, e uma fonte de energia compacta.
Por
mais notável que uma retina artificial pareça,
é apenas um pequeno passo rumo ao maior dos objetivos
-realizar engenharia reversa de toda a estrutura ornada do cérebro,
até o último dendrito.
Uma
simulação completa requereria uma planta neural
minuciosamente detalhada do cérebro, das células-tronco
aos lobos frontais.
É
isso exatamente que Bruce McCormick, diretor do Laboratório
de Redes Cerebrais da Universidade A&M, do Texas, espera
criar usando uma novas câmera microscópica conhecida
como Scanner de Tecidos Cerebrais.
divulgação |
 |
Scanner
de Tecidos Cerebrais |
O
aparelho divide tecidos cerebrais em um camundongo, usando um
bisturi com lâmina de diamante, ilumina as fatias com um
feixe de laser, registra uma imagem com uma câmera digital,
e armazena os dados resultantes em um disco rígido.
O
Scanner de Tecido Cerebral pode observar detalhes de até
1/250.000 de centímetro, menores que um neurônio
individual. Toda essa informação visual -cerca
de 26 terabytes no caso de um camundongo- é a seguir
reconstruída para criar um modelo tridimensional do cérebro,
com alta resolução.
"Podemos
agora fazer uma varredura completa no cérebro de um camundongo
em prazo de um mês", disse McCormick. O cérebro
humano é 1,5 mil vezes maior que um cérebro de
camundongo, e contém espantosos 100 trilhões de
conexões, de modo que o Laboratório de Redes Cerebrais
tem um grande desafio a enfrentar.
A
equipe de precisa desenvolver software capaz de exibir com precisão
um volume tremendo de informações visuais, de
todos os ângulos, do lado de dentro e do lado de fora.
Ele planeja avançar de camundongos para cérebros
humanos em 2003, e ter um mapa completo do cérebro humano
pronto em 20 anos.
Russell
Jacobs e seus colegas estão usando imagens de ressonância
magnética e outras técnicas não invasivas
para estudar as profundezas dos cérebros fetais de camundongos,
pássaros e macacos.
O
esforço não se poderá ser comparado à
resolução elevada da scanner de tecidos da Universidade
Texas A&M, pelo menos não inicialmente, mas acrescentará
um elemento crucial, o tempo. Os estudos de ressonância
magnética podem ilustrar de que maneira a anatomia cerebral
e a estrutural neuronal se alteram ao longo do desenvolvimento.
O
objetivo de longo prazo da equipe da Caltech é montar
imagens múltiplas do cérebro de um animal jovem
em um atlas interativo e tridimensional, mostrando exatamente
o que acontece à medida que os neurônios se programam.
McCormick
estima que demorará ao menos duas décadas para
combinar chips que se alteram sozinhos e mapas neuronais detalhados
a fim de criar até mesmo uma cópia bruta do cérebro
humano.
Ray
Kurzwell, um pesquisador da inteligência artificial, demonstra
muito mais otimismo. "Acredito que dentro de 30 anos, ou
provavelmente ainda antes, poderemos concluir a engenharia reversa
do cérebro humano e recriar sistemas concorrentes que
o emulem", afirma.
Boahen
prefere evitar quaisquer previsões. "Quando mais
se aprende sobre biologia, tanto mais se desenvolve a humildade.
Ela cria projetos de engenharia tão melhores que os nossos".
Mas
ele confia em que, mais cedo ou mais tarde, a abordagem de engenharia
realizará a visão de Turing quanto a uma máquina
inteligente. "Eu sou um sujeito prático. Acredito
que se você montar as peças certas do jeito certo,
obterá o resultado esperado".
Tradução:
Paulo Migliacci
|