"Tentar
traduzir o que se esconde por trás dessas cores já é
difícil, até mesmo porque o rubro-negro é combinação
popular no mundo inteiro. No entanto, diversos pesquisadores das mais
variadas estirpes e especialidades tentam explicar o fenômeno
Clube de Regatas Flamengo no Brasil. Como na música, cinema,
literatura científica ou popular nada dantes na história
esportiva foi tamanho motivo de inspiração cultural.
Essa mítica história; esse grande mistério da
cultura brasilis, mistura-se com a própria formação
cultural do povo brasileiro. Segue a história do pássaro
que virou clube, que revirou pássaro, que transformou-se em
Religião - A história do maior partido do Brasil"
Clube
de Regatas Flamengo
UMA ETERNIDADE RUBRO-NEGRA
O remo, ou "rowling", era o esporte da moda no fim do
século XIX no Rio de Janeiro. Aqui e ali surgem clubes para a
sua prática. Numa manhã de sol tipicamente carioca, sete jovens,
liderados pelo guarda-livros Nestor de Barros, se reúnem na praia
do Flamengo dispostos a fundar um "grêmio" que possa representar
o bairro nas competições. O primeiro passo foi comprar uma "baleeira",
a Pherusa. No domingo, 6 de outubro de 1895, a embarcação ganha
as águas da Baía de Guanabara. O passeio não foi lá muito bem-sucedido:
a tempestade que chegou no fim da tarde fez a Pherusa naufragar,
e os sete jovens salvaram-se quase que por milagre. Nada, entretanto,
seria capaz de fazê-los desistir do seu objetivo.
O naufrágio da Pherusa foi registrado na edição de 9 de outubro
do "Jornal do Commercio". Além de Nestor, integravam o grupo Felisberto
Laport, Joaquim Leovegildo dos Santos Bahia, José Agostinho Pereira,
José Félix da Cunha, Maurício Rodrigues Pereira e Mário Spíndola.
Foram todos resgatados pela lancha Leal, que voltava das comemorações
da tradicional Festa da Penha. A Pherusa também retornou ao Cais
Pharoux, rebocada. Mas sem ter quem que pudesse vigiá-la acabou
sendo roubada. Logo seria necessário uma outra "vaquinha" para
a compra de uma nova embarcação.
Quarenta dias após o naufrágio, Nestor de Barros convocou nova
reunião, "aberta a todos os interessados". A idéia de fundar um
"gêmio" amadurecera, e o encontro foi dos mais animados. No dia
17 de novembro de 1895, 14 rapazes compareceram ao casarão do
número 22 da praia do Flamengo, onde o incansável guarda-livros
alugava um cômodo. Após duas horas de debates, eles assinaram
a ata de fundação do "Grupo de Regatas do Flamengo". O guarda-marinha
Domingos Marques de Azevedo, que chegara a atrasado à reunião
e que fora ao 22 movido apenas por uma confessa "curiosidade",
impressionou pela articulação. Assim, acabou sendo eleito o primeiro
presidente do clube.
De acordo com a memória histórica organizada na década de 20 pelo
ex-presidente Álvaro Zamith, assinaram a ata de fundação, além
de Domingos e de Nestor, Desidério Guimarães, Eduardo Sardinha,
Felisberto Laport, Francisco Lucci Goiás, Georges Lauzinger, José
Agostinho Pereira da Cunha, José Félix da Cunha Menezes, José
Maria Leitão da Cunha, Mário Spíndola, Maurício Rodrigues Pereira,
Napoleão Coelho de Oliveira e Nestor Carlos Sardinha. Por sugestão
de Spíndola, as cores escolhidas para o clube foram o azul, "da
Baía de Guanabara" e o ouro "das nossas riquezas". Definiu-se
também que a fundação seria sempre comemorada no dia 15 de novembro,
data da Proclamação da República.
Na primeira regata oficialmente disputada, em 7 de dezembro de
1895, o Flamengo chega em último lugar, atrás do Gragoatá e do
Botafogo. Durante algum tempo, aliás, o clube amarga posições
secundárias. Coincidência ou não, o fato é que as primeiras vitórias
só começam a surgir após a assembléia de 23 de novembro de 1896,
quando a diretoria troca as cores dos uniformes para vermelho
e preto, por sugestão de Nestor de Barros, e decide batizar os
barcos com nomes indígenas. Na "Regata Comemorativa do IV Centenário
da Descoberta do Brasil", em 6 de maio de 1900, o Flamengo ganha
todas as medalhas de ouro. E passa a ser definitivamente respeitado.
Em 1902, aprova-se a proposta do poeta Mário Pederneiras, um entusiasta
das regatas, de trocar o "Grupo" pelo "Club" no nome oficial.
Mas apesar das vitórias alcançadas na primeira década do século,
a sede rubro-negra continuava a ser na garagem do casarão do número
22. E os próprios sócios eram obrigados a cuidar da conservação
dos barcos. Curiosamente, uma cisão em um outro clube, de futebol,
transformaria a vida do Flamengo, tornando-o um dos mais populares
do Brasil.
Tudo começa no dia 21 de setembro de 1911, na Pensão Almeida,
no bairro do Catete, onde reúnem-se jogadores do aristocrático
Fluminense. Eles estão insatisfeitos com o "ground committee"
do time, que barrara o centroavanate Alberto Borgerth, escalando
em seu lugar o zagueiro Ernesto Paranhos. Decide-se pela debandada
geral. Consciente de sua importância, o grupo ainda cumpre a promessa
de derrotar o América (2 x 0) e conquistar o título carioca pelo
tricolor. Mas no dia seguinte todo mundo anuncia o seu desligamento.
O próximo passo é encontrar um clube que ainda não pratique o
futebol e que possa aceitá-los.
Na noite de 8 de novembro de 1911, a proposta é apresentada ao
Flamengo, por iniciativa de Alberto Borgerth. O pessoal do remo,
que considerava o futebol um esporte "de pulinhos de bailarina",
mostra-se contrário. Os debates prosseguem até o dia 24 de dezembro.
Nessa data, nova assembléia, orientada pelo recém-empossado presidente
rubro-negro, Edmundo Azurém Furtado, aprova enfim a criação de
um "Departamento de Desportos Terrestres". Transferem-se para
o clube, além de Borgerth, os ex-tricolores Armando de Almeida,
o "Galo", Emmanuel Nery, Ernesto Amarante, Gustavo de Carvalho,
Lawrence Andrews, Orlando Sampaio Mattos, o "Baiano", Othon Baena
de Figueiredo e Píndaro de Carvalho Rodrigues.
1912 - 1919
— Papagaio-de-vintém, cobra-coral e o bicampeonato
No dia 9 de janeiro de 1912, o Flamengo ingressa na Liga
Metropolitana de Sports Athléticos (LMSA), a entidade que dirige
o futebol carioca. Na primeira partida disputada pelo clube, em
3 de maio, válida pelo Campeonato Carioca, o rubro-negro derrotou
o Sport Club Mangueira por 16 x 2. Gustavo de Carvalho fez o primeiro
gol e mais outros quatro. Arnaldo (4), Amarante (4), Borgerth
(2) e Galo completaram. Levi e Otávio marcaram para o adversário.
O jogo foi realizado no campo do América, na Tijuca, e o time
jogou com Baena, Píndaro e Nery; Lawrence, Gilbert e Galo; Baiano,
Arnaldo, Amarante, Gustavo e Borgerth.
Naquele primeiro campeonato, o Flamengo foi apenas vice, atrás
do Paysandu. E perdeu o primeiro duelo com o Fluminense, no dia
7 de julho, no estádio das Laranjeiras. O tricolor, com jogadores
que foram reservas dos titulares rubro-negros, venceu por 3 x
2. Em 1913, o clube voltou a ficar em segundo lugar. Os dois vices
reforçaram a tese de que o primeiro uniforme do futebol, de camisas
e meias de grandes quadrados vermelhos e pretos, e de calções
brancos, não trazia sorte.
O pessoal do remo, a princípio, não permitiu que o futebol utilizasse
a sua roupagem. Mas na realidade todos concordaram que o traje
original, importado da Inglaterra pelo tesoureiro Hugh Pullen,
era de um mau gosto exemplar. O carioca, sempre bem-humorado,
logo apelidou-o de "papagaio-de-vintém". Assim, em 1914 o Flamengo
trocou o uniforme: adotou uma camisa de listras vermelhas e pretas
horizontais, intercaladas por riscas brancas de menor espessura.
Só a cor dos calções permaneceu. As meias passaram a ser negras.
Chamado de "cobra-coral", o novo uniforme espantou o azar. Em
1914 e 1915, o rubro-negro foi bicampeão carioca, perdendo apenas
uma das 24 partidas disputadas, por 2 x 1 para o Botafogo, no
primeiro campeonato. Os destaques do time eram os zagueiros Píndaro
e Nery, heróis da primeira Copa Roca ganha pela Seleção Brasileira
contra a Argentina, em 1914, e o centro-médio Sidney Pullen, um
inglês que se adaptou com perfeição ao futebol brasileiro.
Apesar de já possuir um quadro representativo de quase 500 associados,
o Flamengo só conseguiu inaugurar seu estádio em 31 de outubro
de 1915, na vitória de 5 x 1 sobre o Bangu. Foi construído em
um terreno localizado na Rua Paysandu, vizinho ao Fluminense,
e pertencia à tradicional família Guinle. O clube arrendou-o por
500 mil réis mensais. Mas o estádio não trouxe os resultados esperados
em seus primeiros anos de vida. Em 1916, o Flamengo ficou em quarto
lugar; em 1917, em terceiro; em 1918, novamente em quarto e em
1919 foi vice.
1920 - 1932
— Quatro títulos e os primeiros ecos do profissionalismo
O novo uniforme foi definitivamente aprovado na assembléia
de 23 de dezembro de 1920. Quatro dias antes disso, entretanto,
o Flamengo conquistou um novo Campeonato Carioca. Foi o terceiro
da história do clube _ o segundo invicto _, no qual destacavam-se
o "keeper" Julio Kuntz, o "back" Telefone, os "halfs" Rodrigo
e Sisson e o "center-forward" Junqueira. Em 1921, com praticamente
o mesmo time do ano anterior, o clube chegou ao bi, após decisão
dramática contra o América, em jogo-extra. O América fez 1 x 0,
com Chico. Nonô empatou. E Candiota marcou o gol da vitória, aos
sete minutos da prorrogação. O Flamengo jogou com Kuntz, Burgos
e Telefone; Rodrigo, Sidney Pullen e Dino; Galvão, Candiota, Nonô,
Junqueira e Orlando.
Entre 1922 e 1932, o Flamengo conquistou mais dois campeonatos.
Em 1925, o time, com sete craques de Seleção Brasileira _ Batalha,
Hélcio, Penaforte, Japonês, Candiota, Nonô e Moderato _ marcou
61 gols em 18 partidas, média de 3,3 gols por jogo. A equipe sofreu
apenas uma derrota, de 3 x 1 para o Fluminense. Em 1927, o rubro-negro
ganhou um dos campeonatos mais importantes de sua história. Razões
de ordem política levaram a Associação Metropolitana de Esportes
Athléticos, que dirigia o futebol do Rio, a suspender o clube.
Pressões acabaram derrubando a decisão da AMEA, mas quando o Carioca
começou o Flamengo praticamente não tinha time. Juntaram-se cacos
daqui e dali, e a mística da camisa rubro-negra acabou prevalecendo.
Nos campeonatos realizados entre 1928 e 1932, o Flamengo não foi
muito bem. Chegou a ficar em 10º e penúltimo lugar em 1929. Ecos
do profissionalismo, cuja implantação parecia inevitável, e que
o clube se recusava a aceitar. A situação só melhorou quando José
Bastos Padilha assumiu a presidência do clube, substituindo Pascoal
Segreto Sobrinho, em meados de 1933. Padilha não tardou a pôr
o Flamengo na Era da Modernidade: fez o clube enfim optar pelo
regime remunerado, adotado naquele ano, reformulou conceitos administrativos,
escancarou as portas do rubro-negro aos jogadores negros e tratou
de iniciar a construção de uma nova sede e de um novo estádio.
Em 1932, o Flamengo foi obrigado a devolver o terreno da Rua Paysandu
à família Guinle. Graças à manobra política perpetrada junto à
Prefeitura do então Distrito Federal, Padilha concluiu os entendimentos
para a cessão de uma área de 72 mil metros quadrados às margens
da Lagoa Rodrigo de Freitas, em plena Zona Sul, onde construiu
o Estádio da Gávea. As participações da equipe no Carioca não
foram muito felizes. Mas as contratações de supercraques como
Domingos da Guia, Fausto dos Santos, Valdemar de Brito e Leônidas
da Silva, o "Diamante Negro" começaram a arrastar multidões aos
jogos do Flamengo, tornando-o um time de massa.
1933 - 1941 — À sombra do primeiro
tri
Em 1934, Padilha lançou o ex-centro-médio Flávio Costa
na direção técnica do time. Pela primeira vez, o Flamengo tinha
um treinador de verdade. Flávio começou a formar a base que logo
renderia dividendos inestimáveis. Ele deixou o clube dois anos
mais tarde, brigado com Padilha, que na ânsia de fazer do rubro-negro
"o maior time do mundo" trouxera da Europa o treinador húngaro
Dori Krueschner. Krueschner desembarcou no Rio em 16 de março
de 1937 e não tardou a introduzir esquemas táticos desconhecidos
para o futebol brasileiro, como o WM _ criado na Inglaterra nos
anos 20, e formado por três zagueiros, dois médios de apoio e
dois de ligação e três atacantes _ e implantou modernos métodos
de trabalho.
Krueschner caiu em 4 de setembro de 1938. A derrota por 2 x 0
para o Vasco, na inauguração oficial do Estádio da Gávea, foi
apenas a gota d'água, pois o homem não falava português, e seu
relacionamento com os jogadores tornara-se embaraçoso. Mas Flávio,
de volta ao Flamengo, aproveita seu legado para levar o time à
conquista do Campeoanto Carioca de 1939. O título foi confirmado
na goleada de 4 x 0 sobre o Vasco, nas Laranjeiras, no dia 3 de
dezembro, quando o rubro-negro alinhou a equipe que muitos consideram
uma das cinco melhores de sua história: Yustrich, Domingos da
Guia e Newton; Artigas, Volante e Médio; Sá, Valido, Leônidas
da Silva, Gonzalez e Jarbas.
Maior craque flamenguita da época, Leônidas rapidamente tornou-se
um ídolo nacional. Seu futebol de técnica refinada e de muitos
gols e a força da torcida do Flamengo o tornaram tão popular quanto
o então presidente da República, Getúlio Vargas, e o "cantor das
multidões", Orlando Silva. Mas o jogador trocou a Gávea pelo São
Paulo em 1942, após desentendimentos com a diretoria do Flamengo,
obrigando Flávio Costa a reformular o time. Em 1940 e 1941, o
rubro-negro ficou apenas com o vice-campeonato. Mas nos três anos
seguintes não deu chance aos adversários.
1942 - 1952 — De
um tri ao outro
Na realidade, desde o fim de 1939 que Flávio já encontrara
um substituto para Leônidas. Descoberto nas peladas de Niterói,
Zizinho foi aos poucos ocupando o lugar do "Diamante Negro" no
time e no coração da torcida. E acabou sendo peça fundamental
no primeiro tri do Flamengo, com os gols e as jogadas geniais
que levaram mais tarde Pelé a elegê-lo como o seu maior ídolo.
O título de 1942 foi conquistado no empate de 1 x 1 com o Fluminense,
nas Laranjeiras, em 11 de outubro. O Flamengo jogou com Jurandyr,
Domingos da Guia e Newton; Biguá, Volante e Jayme; Valido, Zizinho,
Pirilo, Nandinho e Vevé.
O título de 1943 veio no dia 10 de outubro, com a goleada de 5
x 0 sobre o Bangu, na Gávea. O time é praticamente o mesmo do
ano anterior. A vaga de Valido, que "pendurara as chuteiras" para
cuidar de sua gráfica, passou a ser ocupada pelo titular Nilo
e por seu reserva Jacyr. E o paraguaio Modesto Bria, trazido de
Assunção em um monomotor por Ary, substituiu Artigas nas seis
partidas derradeiras.
E o título de 1944 foi ganho graças à perseverança de Flávio Costa
e ao esforço de Valido, naquela época em que os craques realmente
jogavam por amor à camisa. Restavam duas partidas para o fim do
campeonato. Valido apareceu na Gávea para disputar uma pelada
com o time de sua gráfica. Flávio notou que o ex-ponta ainda estava
em forma e pediu para que ele integrasse o time nos jogos finais.
O técnico perdera Domingos, vendido ao Corinthians, e Perácio,
que seguira para a Itália, para lutar como "pracinha" na Segunda
Guerra. Valido relutou. Mas acabou aceitando. Inscrito como amador,
participou da goleada de 6 x 1 sobre o Fluminense, em 22 de outubro,
mas as energias gastas na partida deixaram-no abatido.
No domingo seguinte, o Flamengo decide o campeonato contra o Vasco.
Valido foi à Gávea. Estava débil, com 38 graus de febre. Mas Flávio
praticamente obrigou-o a jogar. Restavam dois minutos para o encerramento,
quando Vevé cobrou falta na área. Valido escorou-se nas costas
de Argemiro e cabeceou sem chance para Barqueta, marcando o gol
de um dos títulos mais comemorados da história rubro-negra. O
time? Jurandyr, Newton e Quirino; Biguá, Bria e Jayme; Valido,
Zizinho, Pirilo, Tião e Vevé.
Seguiu-se um período de "vacas magras". Entre 1944 e 1952, período
dominado pelo "Expresso da Vitória" do Vasco, os melhores resultados
do Flamengo foram o terceiro lugar em 1949 e o vice-campeonato
em 1952. Os maiores legados da época são a posse de Gilberto Ferreira
Cardoso, tido ainda hoje como o maior presidente dos 105 anos
de existência do clube, e a excursão à Europa, também em 1951,
encerrada com 10 vitórias em 10 jogos. O time-base formou com
Garcia, Biguá e Pavão; Válter Miraglia, Dequinha e Bigode; Nestor,
Hermes, Adãozinho, Índio e Esquerdinha.
1953 - 1963 — Dos meninos
de Solich ao retorno de Flávio
Na viagem à Europa, Gilberto e o técnico Flávio Costa
formaram o embrião da equipe que o paraguaio Fleitas Solich tornou
tricampeã em 1953, 1954 e 1955. No campeonato de 1953, os destaques
foram o centro-médio Dequinha, o lateral Jordan, o ponta-de-lança
Rubens da Costa, o "Doutor Rúbis" _ além de Benitez, também importado
do Paraguai, e que acabou como artilheiro do Carioca, com 22 gols.
Um dos méritos de Solich era o de transformar promessas em craques
de verdade. No campeonato de 1954, "O feiticeiro" passou a aproveitar
com maior intensidade atacantes como Paulinho, Evaristo, Dida,
Babá e Zagallo. O time sofreu apenas duas derrotas em 27 partidas.
O título de 1955 foi mais complicado. O Flamengo e o América somaram
o mesmo número de pontos e decidiram o Carioca em melhor-de-quatro
pontos. O Flamengo ganhou o primeiro jogo por 1 x 0, gol de Evaristo.
O América goleou por 5 x 1 na segunda partida. E o rubro-negro
quase devolveu o placar na terceira e última partida, disputada
em 4 de abril de 1956, vencendo por 4 x 1. O Maracanã recebeu
público estimado na época em 180 mil pessoas, e o presidente da
República Juscelino Kubitschek esteve presente. O time campeão:
Chamorro, Tomires e Pavão; Servílio, Dequinha e Jordan; Joel,
Duca, Evaristo, Dida e Zagallo.
Entre 1955 e 1962, a maior conquista do Flamengo foi o Torneio
Rio-São Paulo de 1961, que marcou o retorno de Flávio Costa. Na
etapa final, o time venceu (5 x 1) o Santos, o Palmeiras (3 x
1) e o Corinthians (2 x 0). O vice carioca de 62, na derrota de
3 a 0 para o Botafogo, foi marcado por uma briga até hoje comentada,
entre Flávio e o meia Gérson. O treinador cismou de escalá-lo
como terceiro homem de meio-campo, para neutralizar Garrincha.
O jogador aceitou, a contra-gosto, e o episódio acabou custando
a sua saída do clube, em jullho de 63.
1963 - 1977 — Dois títulos antes
da Era Zico
O título carioca de 1963 foi muito festejado por ter sido
obtido em circunstâncias especiais: o time não era brilhante e
só garantiu o campeonato no empate de 0 x 0 com o Fluminense na
decisão, graças às defesas espetaculares de Marcial, uma jovem
revelação do futebol mineiro. A equipe formava com Marcial, Murilo,
Luiz Carlos, Ananias e Paulo Henrique; Carlinhos e Nelsinho; Espanhol,
Aírton, Geraldo e Oswaldo.
Em 1965, o destaque foi a dupla de ataque integrada pelo polêmico
Almir e pelo "batuta" Silva, dois "banidos" do futebol paulista
_ do Santos e do Corinthians. O campeonato teve apenas 14 partidas,
e o Flamengo conquistou o título por antecipação. Na noite de
sábado, 18 de dezembro, o Fluminense venceu por 1 x 0 o Bangu,
que ficou fora do páreo. No dia seguinte, com o Maracanã em festa,
o Flamengo acabou sendo derrotado (1 x 0) pelo Botafogo.
Nos anos que antecederam as conquistas da Era Zico são dignos
de registro o gol de Almir, arrastando corpo e rosto na lama,
na vitória de 2 x 1 sobre o Bangu, no primeiro turno do Carioca
de 1966, e alguns momentos de Garrincha com a camisa rubro-negra,
entre 1968 e 1969. Na campanha que levou ao título carioca de
1972, o Flamengo era dirigido por Mário Jorge Lobo Zagallo, e
seus destaques eram craques como o zagueiro paraguaio Reyes, o
lateral Rodrigues Neto e os atacantes Doval e Paulo César Lima.
O artilheiro Caio ganhou o apelido de "Cambalhota" por comemorar
com acrobacias cada um dos 14 gols que marcou ao longo do campeonato.
Zico, 19 anos, ainda juvenil, jogou duas vezes no campeonato.
O time jogava com Renato, Moreira, Chiquinho, Reyes e Rodrigues
Neto; Liminha e Zé Mário; Rogério, Caio, Doval e Paulo César Lima.
Wanderley Luxemburgo, futuro técnico da Seleção, era reserva e
disputou quatro dos 27 jogos.
Zico estreou entre os profissionais em uma partida pela Taça Guanabara,
em 29 de julho de 1971, e deu o passe para Ney Oliveira marcar
o gol da vitória por 2 x 1. Mas só "explodiu" de fato durante
a conquista do Carioca de 1974, quando marcou 19 vezes e mostrou
o vasto repertório que faria dele o maior jogador da história
do Flamengo. O técnico rubro-negro era Joubert Meira.
Joubert plantou a semente dos frutos que Cláudio Coutinho começou
a colher em 1978, quando o Flamengo formou o time mais vencedor
dos 105 anos de sua existência e que conquistou 20 títulos até
1983, quando Zico foi vendido para o Udinese, da Itália.
1978 - 1983 — No topo do mundo
O técnico Claudio Coutinho chegou ao Flamengo em 1976.
E terminou por aplicar no clube todas as suas concepções de futebol
moderno, embora também tenha sido muitas vezes criticado. Tinha
muitos craques à sua disposição, mas soube fazer as peças funcionarem
com precisão.
Em 1977, o Flamengo perdeu o título carioca nos pênaltis para
o Vasco. No ano seguinte, deu o troco, em decisão tão festejada
quanto aquela protagonizada por Valido, 34 anos antes. Uma vitória
sobre os cruzmaltinos dava o campeonato ao clube. Foi no dia 3
de dezembro. Aos 43 minutos do segundo tempo, Zico cobrou um escanteio
e Rondinelli apareceu de surpresa para cabecear, sem chance de
defesa para Leão. Com aquele 1 x 0, o rubro-negro iniciava a escalada
rumo ao topo do mundo, época em que o presidente Márcio Braga
fez fama pela forma com que comandou o clube. O time-base campeão:
Cantarelli (Raul), Toninho, Rondinelli, Manguito (Nélson) e Júnior;
Paulo César Carpeggiani, Adílio e Zico; Tita (Marcinho), Cláudio
Adão e Cléber.
Em 1979, foram disputados dois campeonatos no Rio, um com 10 clubes,
chamado "Especial", e o outro com 18. O Flamengo ganhou os dois,
o mais curto sem derrota _ foi o terceiro título invicto da história
do clube, o primeiro no profissionalismo. Zico marcou 34 vezes
e só não superou o recorde de 39 gols estabelecido pelo também
rubro-negro Silvio Pirilo em 1941 porque uma distensão deixou-o
fora do terceiro turno. O tri foi praticamente assegurado por
antecipação, na vitória de 3 x 2 sobre o Vasco, em 28 de outubro,
com um gol de Tita, de cabeça. O time apresentou apenas uma novidade
em relação a 1978: o ponta Júlio César, que de tanto entortar
os adversários com seus dribles acabou sendo apelidado de "Uri
Geller", um paranormal israelense que fez sucesso na TV no fim
dos anos 70.
Se algum rubro-negro, não importa de que geração, ainda tivesse
um grito preso na garganta, exorcizou-o defintivamente na primeira
metade da década de 80. Entre outros títulos, o Flamengo foi campeão
da Taça Libertadores da América e do Mundial Interclubes, ganhou
três Brasileiros, um Estadual e cinco Taças Guanabaras, além de
torneios de peso na Europa.
O Brasileiro de 1980 foi assegurado no dia 1º de junho, com vitória
de 3 x 2 sobre o Atlético-MG de Reinaldo, no Maracanã. A conquista
foi um passaporte para a Libertadores de 1981. Para ganhá-la,
entretanto, o Flamengo precisou superar sobretudo a violência
do outro finalista, o Cobreloa. O rubro-negro venceu o primeiro
jogo no Maracanã, por 2 x 1, mas acabou sendo derrotado na segunda
partida, em Santiago. No terceiro jogo, disputado em 23 de novembro,
no campo neutro do Estádio Centenário de Montevidéu, o Flamengo
venceu por 2 x 0, com dois gols de Zico.
A conquista da Libertadores deu ao Flamengo o direito de decidir
com o inglês Liverpool o Mundial Interclubes, em Tóquio. O jogo
foi no dia 13 de dezembro. O adversário, conhecido como "Exército
Vermelho", chegara precedido de muita fama. Jogava junto havia
seis anos e conquistara, no período, nove títulos, três dos quais
de campeão da Europa. Os ingleses olharam os brasileiros com indisfarçável
ar de superioridade, mas ao fim dos primeiros 45 minutos, o Flamengo,
com uma exibição quase perfeita, já vencia por 3 x 0. Os gols
de Nunes (2) e Adílio bastaram. O time: Raul, Leandro, Marinho,
Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico.
Em 1982 e em 1983, o Flamengo chegou ao tricampeonato brasileiro.
O campeonato de 1982 foi ganho com uma vitória de 1 x 0 sobre
o Grêmio, em pleno Estádio Olímpico de Porto Alegre, gol de Nunes.
O de 1983 com o triunfo de 3 x 0 sobre o Santos, no Maracanã,
gols de Zico, Leandro e Adílio.
1984 - 1992 — Júnior assume o
leme e comanda a festa
Zico é vendido ao Udinese em julho de 1983 e retorna ao Flamengo
em julho de 1985. Nessa período sem o "Galinho", o clube viveu
dois anos sem títulos importantes. Em 1986, o Flamengo ganha o
Estadual, com vitória de 2 x 0 sobre o Vasco, e em 13 de dezembro
de 1987 conquista o seu quarto título brasileiro, derrotando o
Internacional por 1 x 0, no Maracanã. Esse foi o tal título da
Copa União, que a CBF não reconheceu como Brasileiro, dizendo
que o campeão era o Sport-PE. Na verdade, o Clube dos 13, que
acertou com CBF a realização da competição, não aceitou ter de
disputar uma última rodada contra os vencedores do grupo com os
times de menos tradição. Mas para quem levava o futebol a sério
naquela época, o campeão do ano foi mesmo o Flamengo. A equipe
rubro-negra formou com Zé Carlos, Jorginho, Leandro, Edinho e
Leonardo; Andrade, Aílton e Zico; Renato Gaúcho, Bebeto e Zinho.
Em 6 de fevereiro de 1990, Zico abandonou de vez o futebol. O
Flamengo sabia que sentiria a sua ausência, mas continuaria mantendo
a tradição de ganhar títulos importantes, como a Copa do Brasil
de 1990 _ a única de um clube do Rio _, o Estadual de 1991 e o
Brasileiro de 1992, superando nas finais o grande rival Botafogo
_ 3 x 0 e 2 x 2. Destaca-se no período, sobretudo, o já veterano
Júnior, que regressou ao Brasil em 1988, após cinco temporadas
no futebol italiano. Nessa época, Júnior tornou-se o símbolo da
garra flamenguista e com sua experiência foi uma espécie de mistura
de jogador e técnico dentro de campo.
1993 - 2000 — A caminho da fortuna
No
final dos anos 90, o Flamengo caminhou para a modernização administrativa.
Desde dezembro de 1999, o clube conta com o apoio da empresa suíça
International Sports & Leisure - ISL. Mas dentro de campo
o Flamengo não conseguiu ser a mesma potência do período Zico-Júnior.
Obteve algumas conquistas importantes, como em 1996, quando venceu
o quarto Estadual invicto de sua história. Voltou a ser campeão
do Rio em 1999, superando o favorito Vasco nas finais, e arrebatou
também, neste último ano, a Copa Mercosul. O marco dessa fase
foi a passagem pelo clube do atacante Romário, o baixinho que
conquistou quase sozinho o Mundial de 94 para o Brasil. Em 1995,
o Flamengo colocou ao lado dele Sávio e Edmundo, no que deveria
ter sido o "Ataque dos Sonhos". Mas, além de aturar uma defesa
conhecida como "Defesa dos Pesadelos", o torcedor flamenguista
viu o ataque ser chamado de "O Pior Ataque do Mundo". Era uma
provocação dos adversários, principalmente os vascaínos, mas não
dá para negar que a famosa formação ofensiva foi uma decepção
generalizada.
Em 1999, Romário brigou com a diretoria e voltou para o Vasco.
Era mais uma fase que terminava para o rubro-negro da Gávea, campeão
carioca de 2000.