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UM "PETER PAN" PARA CADA CICLO |
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![]() " Eis o verdadeiro sentido da Medicina: longevidade. Após séculos de prognóstico esse nobre ramo da ciência está prestes a mastigar tudo sobre nossas ruginhas vindouras e a degradação natural do organismo. Mas será que essa degradação é mesmo natural e não passamos de máquinas previsíveis??? Pense um pouco lendo outra excelente reportagem da revista Veja que adaptamos pra você." |
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Depois que desistiu de buscar a fonte da juventude, a ciência avançou muito no estudo do processo de envelhecimento e de como retardá-lo. Deram em nada ou em pouca coisa os tratamentos tidos como milagrosos feitos à base de extratos de embrião de carneiro ou as dietas inspiradas no cardápio de populações longevas de aldeias perdidas no interior da Ucrânia. Continuam estancadas as linhas de pesquisa que procuram um gene responsável pelo envelhecimento ou a pílula salvadora, a "bala mágica", como dizem os médicos, capaz de preservar a juventude. Substâncias como a melatonina ou o DHEA tiveram essa fama nos anos 90. Hoje são vistas apenas como coadjuvantes úteis em certos tratamentos. Apesar disso, ou talvez exatamente por essa razão, nunca como agora as pessoas tiveram tantas armas para combater as condições adversas associadas à idade. O médico americano Bruce Yanker, neurologista da Escola de Medicina de Harvard, foi um dos primeiros especialistas a defender a tese de que a melhor abordagem seria abandonar o sonho de que um dia a poção da juventude sairia pronta do laboratório de algum gênio.
O primeiro avanço foi entender que os processos normais de amadurecimento do corpo humano teriam de ser estudados separadamente das doenças comumente associadas à velhice. Diz Yanker: "Livre de doenças, o cérebro e outros órgãos podem se manter totalmente funcionais por décadas depois dos 50 anos. Basta que eles sejam usados". O segundo e talvez mais significativo passo foi dado pelo médico Michael Roizen, um americano de 57 anos, que há quatro escreveu um livro revolucionário, Idade Verdadeira, propondo que as pessoas têm duas idades, e não apenas a que consta dos documentos de identidade. Roizen colocou de pé, então, o conceito de idade biológica. Ele mostrou cientificamente o que muita gente já percebia de maneira empírica: pessoas de mesma idade no calendário têm aparência e saúde tão distintas que parecem ou muito mais jovens ou muito mais velhas. Depois do sucesso do primeiro livro, Roizen abandonou seu laboratório na Universidade de Chicago e criou o Instituto da Idade Verdadeira. Ali, com a ajuda de uma dezena de especialistas, passou à fase prática de suas pesquisas. Ele prepara agora um livro sobre como conservar a juventude atrasando o relógio biológico. "Se uma pessoa fizer tudo certo, ela pode ter uma idade biológica mais de vinte anos menor que sua idade no calendário", disse Roizen a VEJA na semana passada.
No novo livro, o médico desenvolverá o que chama de "doze caminhos para diminuir sua idade biológica" (veja gráfico). Com base num cálculo complexo que leva em conta dados epidemiológicos e pesquisas de mortalidade, Michael Roizen chegou a um fator de redução da idade que lhe permite afirmar com alguma segurança quantos anos se pode ganhar de saúde biológica com cada providência em benefício da saúde. Ele escreveu, por exemplo, que duas caminhadas diárias de vinte minutos podem atrasar o tique-taque biológico em cinco anos. Por que não seis ou sete? Segundo explica Roizen, o ganho pode ser de seis ou sete anos dependendo da fisiologia de cada pessoa. Mas, para a média dos adultos com mais de 40 anos, as caminhadas diárias trazem certo tipo de benefício que levará seu sistema vascular a funcionar como o de alguém cinco anos mais jovem. "Ninguém discute mais que existe uma idade do calendário e uma biológica. Algumas pessoas podem escolher estar à frente do calendário. Outras, estar bem atrás", diz o médico Roizen.
Não é de hoje que há consenso em que faz bem à saúde seguir uma dieta saudável, não fumar e evitar o stress. Muitos especialistas acham, no entanto, que Roizen foi longe demais ao tentar medir os benefícios dos comportamentos positivos em anos e até em meses. Pelo menos dois dos pontos de sua receita para frear o relógio do corpo não são aceitos por unanimidade pelos médicos. Um é o conselho de tomar um comprimido de aspirina por dia. O outro diz respeito às doses extras de vitaminas C e E que ele recomenda. "Roizen manda tomar cápsulas com doses diárias dessas vitaminas, mas não existem estudos definitivos sobre seus benefícios", diz Fábio Nasri, geriatra e endocrinologista, coordenador da Clínica de Memória do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.
"A geração atual é a primeira a ter a sua disposição armas e conhecimento para controlar o processo de amadurecimento do corpo e do cérebro", resume Roizen. Outros especialistas ouvidos por VEJA no Brasil e nos Estados Unidos concordam com a idéia de que esta geração é mesmo privilegiada no que diz respeito à capacidade de espantar os males da velhice. Concordam também com outro conceito fundamental da teoria de Roizen, o de que, como nas aposentadorias bem-sucedidas do ponto de vista financeiro, ter saúde na idade madura exige que se comece a prepará-la cedo. Em alguns casos, antes dos 30 anos. As estatísticas e a realidade dos consultórios refletem as vitórias da ciência médica contra os fantasmas tradicionais que chegam com a idade. • Oito em cada dez doenças associadas à idade avançada podem ser diagnosticadas e prevenidas antes de atacarem o organismo. Entre elas estão males que infernizaram a vida dos pais e avós da atual geração de adultos, como diabetes, hipertensão, artrite, depressão, demência, impotência e inapetência sexual, perda de apetite e insônia. "Os pequenos lapsos de memória são normais em qualquer idade, mas na velhice são encarados como sinais de que o cérebro começou a morrer. Além de causar pavor, essa sensação falsa faz com que muitas pessoas pensem que chegou a hora de desacelerar. Esse é o erro mais comum", afirma o neurologista Yanker. • Vive-se mais e melhor. Um brasileiro nascido em 1900 tinha expectativa de vida de cerca de 34 anos. Um bebê que nasceu em 2000 pode esperar viver 70 anos ou mais. É o dobro. Para o americano Roizen, esse salto, dado em um século, é indicador de que a expectativa de vida deve chegar a 98 anos em algumas décadas devido aos avanços da ciência médica e da instrução cada vez maior das pessoas sobre questões de saúde. Diz Roizen: "A cada cinco anos, o número de pessoas maduras com problemas de saúde cai 1%. Parece pouco, mas é muito quando se lembra que a maioria das pessoas ainda se alimenta mal, fuma e não faz exercícios".
• Nas áreas mais sensíveis e agradáveis da vida humana, a aparência e o sexo, os avanços recentes são ainda mais notáveis. "Hoje em dia apenas com os recursos estéticos dos cremes e dos tratamentos externos de ativação do metabolismo das células é possível adiar as cirurgias plásticas e rejuvenescer um rosto em até dez anos", diz a dermatologista paulista Ana Claudia Schor. Os efeitos nocivos da exposição solar, o grande fator de envelhecimento precoce da pele, já podem ser evitados com filtros capazes de reduzir os raios danosos em 90%. Os dermatologistas calculam que o tempo que uma adolescente, hoje em dia, se expõe ao sol desprotegida não chega a 4% do tempo que sua mãe passava na praia, nos anos 70 e 80, sem proteção solar.
• Remédios como Viagra, Levitra e Cialis resolvem 90% de todos os casos de impotência masculina. Os antidepressivos são usados com sucesso no tratamento de outra disfunção masculina, a ejaculação precoce. "Somando a esses remédios a adoção de hábitos saudáveis de vida, a prevenção e o controle do diabetes e da hipertensão, o homem terá assegurada uma vida sexual ativa por muito mais tempo do que seus pais e avós sonharam ser possível", diz a psiquiatra e sexóloga Carmita Abdo, de São Paulo. E as mulheres? Os médicos são unânimes em reconhecer que, para elas, as coisas estão ainda melhor. As terapias para manter o desejo sexual da mulher e o aspecto atraente de sua pele existem há mais tempo do que as destinadas aos homens. O mesmo se aplica à saúde dos órgãos sexuais e de reprodução da mulher. Uma pesquisa recente da revista americana Esquire mostrou que 40% das americanas entrevistadas responderam "sim" quando lhe perguntaram se estavam fazendo sexo satisfatório depois da menopausa. Elas apontaram como fatores de prazer a aparência jovem proporcionada pelos novos tratamentos estéticos e médicos e o fato de não ter de se preocupar mais com uma gravidez indesejada. "Elas descrevem o sexo maduro como uma experiência prazerosa completamente diferente de tudo o que experimentaram na juventude", escreveu a revista.
A nova abordagem sobre o envelhecimento produziu excelentes resultados práticos. Está fora do horizonte o dia em que os grandes males como o câncer e os ataques cardíacos poderão ser eliminados. Mas mesmo essas moléstias matam muito menos atualmente que há cinco ou dez anos. Os médicos já conhecem todos os fatores de risco para 80% dos tipos de câncer. Eles conseguiram mapear as principais causas e sabem como evitar a maioria das doenças cardíacas provocadas pelo endurecimento e pelo entupimento das artérias. As cirurgias cardíacas tornam-se a cada ano mais eficientes e indolores. Em outra frente de combate às doenças, o conhecimento do histórico familiar alerta homens e mulheres para as doenças que os pais e avós sofreram. Isso permite abortar suas causas antes mesmo que o mal se instale no organismo. "Os check-ups anuais e a visita constante ao médico estão revolucionando o combate ao câncer e aos males cardíacos", diz Roizen. São inúmeras ainda as evidências de que há um longo caminho a ser percorrido no entendimento do metabolismo humano e do desgaste das células, dos órgãos e dos tecidos. Uma das mais singelas é o fato de que não se encontrou explicação satisfatória para os cabelos ficarem brancos com a idade. Também não se sabe exatamente por que a capacidade auditiva diminui. São conhecidas as razões pelas quais até mesmo os olhos sadios precisam da ajuda de lentes corretivas a partir de determinada idade. Não existe, porém, nenhuma abordagem preventiva ou tratamento não cirúrgico para evitar vista cansada.
Ambas as correntes concordam, porém, que basicamente o envelhecimento começa quando certas proteínas com a função de ajudar as células a se duplicar sem erros começam a falhar. A cada cinco anos, todos os 100 trilhões de células renováveis do corpo humano fabricam células substitutas. "O grande avanço da medicina moderna foi descobrir como fazer com que esse processo produza o menor número possível de cópias imperfeitas", resume Roizen. Também não há acordo que coloque para dormir o dilema das mulheres maduras sobre se devem ou não fazer reposição hormonal – talvez a arma médica mais poderosa para adiar a velhice. Pesquisas recentes feitas nos Estados Unidos e na Europa mostraram aumento na incidência de tumores e ataques cardíacos em mulheres que se submeteram às terapias de reposição hormonal. A questão ainda está em aberto. Como certos benefícios da reposição são indiscutíveis, a maior parte dos médicos acha mais prudente discutir caso a caso com suas pacientes.
Há anos os cientistas tentam entender por que as mulheres em todos os países industrializados vivem, em média, seis anos a mais que os homens. Muitas teorias foram postas de pé. Alguns cientistas sugeriram que a causa principal estaria nas diferenças genéticas impressas na própria receita para fabricar bebês do sexo masculino, o chamado "cromossomo Y". Sendo menor que sua contraparte feminina, o "X", esse componente do bolo que produz machos seria mais vulnerável a mutações e desgastes. Recentemente, essa tese foi abandonada. Agora, os médicos estão tendendo a aceitar que a razão principal da longevidade feminina tem causas sociais. "As mulheres correm menos riscos, fumam menos, bebem menos e tendem a se alimentar melhor que os homens. Além disso, elas fazem exames médicos periódicos com freqüência muito maior do que os homens", diz Roizen. "O que temos a fazer é imitá-las."
Com reportagem de Ana Maria
Leopoldo
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