ARTIGOS
Nasce um pária internacional
NOAM
CHOMSKY
Se há alguma coisa óbvia na história da guerra, é que pouca
coisa pode ser prevista.
No Iraque, a força militar mais espantosa da história humana
atacou um país muito mais fraco, uma disparidade de forças enorme.
Demorará algum tempo até que as consequências disso possam ser
avaliadas, ainda que de forma preliminar. Todos os esforços
precisam ser dedicados a minimizar os danos, e a fornecer ao
povo iraquiano os imensos recursos que lhe serão necessários
para reconstruir sua sociedade, depois de Saddam, à maneira
que preferirem, e não como lhes ditarem governantes estrangeiros.
Não existe motivo para duvidar da opinião quase universal de
que a guerra no Iraque só fará aumentar a ameaça de terror,
o desenvolvimento e uso de armas de destruição em massa, por
motivos de vingança ou dissuasão.
No Iraque, o governo Bush está tentando realizar uma "ambição
imperial", ou seja, em termos claros, assustando o mundo inteiro
e fazendo dos Estados Unidos um pária internacional.
A intenção declarada da atual política americana é afirmar um
poderio militar que seja supremo no mundo, para além de qualquer
desafio. As guerras preventivas norte-americanas poderão ser
combatidas da maneira que se quiser, guerras preventivas, e
não de preempção. Quaisquer que possam ser as justificativas
que existam para uma guerra de preempção, elas não se sustentam
no caso das guerras preventivas, uma categoria muito diferente:
o uso da força para eliminar uma ameaça forjada.
Essa política abre caminho a uma disputa prolongada entre os
Estados Unidos e seus inimigos, alguns dos quais criados pela
violência e pela agressão, e não só no Oriente Médio. Quanto
a isso, o ataque norte-americano ao Iraque é uma resposta às
preces de Bin Laden.
Para o mundo, o que está em jogo na guerra e no período que
a seguirá tem importância quase suprema. Para selecionar apenas
uma das muitas possibilidades, a desestabilização no Paquistão
pode levar à entrega de "armas nucleares perdidas" a uma rede
mundial de grupos terroristas, talvez revigorada pela ocupação
militar do Iraque. Outras possibilidades, não menos sombrias,
são fáceis de imaginar.
Intolerância à agressão
Mas a perspectiva de um desfecho mais benigno continua a existir,
a começar pelo apoio mundial às vítimas da guerra, da brutal
tirania e das mortíferas sanções contra o Iraque.
Um sinal promissor é que a oposição à invasão, tanto antes quanto
depois de consumada, é inteiramente sem precedentes.
Em contraste, 41 anos atrás, este mês, quando o governo Kennedy
anunciava que pilotos norte-americanos estavam bombardeando
e metralhando alvos no Vietnã, quase não houve protestos. E
eles não atingiram um nível significativo ainda por alguns anos.
Hoje, há um movimento de protesto contra a guerra em larga escala,
dedicado e baseado em princípios, nos Estados Unidos e em todo
o mundo. O movimento pela paz agiu vigorosamente antes mesmo
que a nova guerra do Iraque tivesse começado.
Isso reflete o progresso constante, nos últimos anos, da intolerância
à agressão e às atrocidades, uma das muitas mudanças que afetaram
todo o mundo. Os movimentos ativistas dos últimos 40 anos exerceram
efeito civilizatório.
Agora, a única maneira de os Estados Unidos atacarem um inimigo
muito mais fraco é montar uma imensa ofensiva de propaganda
retratando-o como a encarnação do mal, ou até mesmo como ameaça
à nossa sobrevivência. Esse foi o cenário que Washington defendeu
com relação ao Iraque.
Mesmo assim, os ativistas pela paz estão em posição muito melhor
agora para impedir um novo recurso à violência, e isso é uma
questão de extraordinária importância.
Uma grande parte da oposição à guerra de Bush se baseia no reconhecimento
de que o Iraque é apenas um caso especial da "ambição imperial"
declarada vigorosamente na Estratégia de Segurança Nacional
apresentada em setembro passado.
Para que tenhamos alguma perspectiva, em nossa situação atual,
pode ser útil que relembremos episódios de história recente.
Em outubro passado a natureza das ameaças à paz foi dramaticamente
sublinhada em uma conferência de cúpula realizada em Havana
no 40º aniversário da crise dos mísseis de Cuba, à qual compareceram
participantes-chave de Cuba, da Rússia e dos EUA.
O fato de que tenhamos sobrevivido à crise foi um milagre. Aprendemos
que o mundo foi salvo da devastação nuclear por um capitão de
submarino russo, Vasili Arkhipov, que cancelou a ordem de disparar
mísseis nucleares, quando submarinos russos foram atacados por
destróieres americanos perto da linha de "quarentena" imposta
por Kennedy.
Se Arkhipov tivesse concordado com o disparo, o lançamento nuclear
decerto teria criado uma troca de ataques que poderia "destruir
o hemisfério Norte", como advertira Eisenhower.
A assustadora revelação vem em momento particularmente adequado,
dadas as circunstâncias: a raiz da crise dos mísseis era o terrorismo
internacional para promover uma "mudança de regime", dois conceitos
que estão nos pensamentos de todos hoje em dia.
Os ataques terroristas norte-americanos contra Cuba começaram
pouco depois que Castro assumiu o poder, e foram vigorosamente
reforçados por Kennedy, até o momento da crise dos mísseis e
depois.
Os novos estudos demonstram com brilhante clareza os riscos
terríveis e imprevistos de ataques contra um "inimigo muito
mais fraco", com o objetivo de promover uma "mudança de regime"
riscos que podem em breve condenar-nos a todos, não é exagero
dizer.
Caminhos perigosos
Os EUA estão desbravando novos e perigosos caminhos, diante
de oposição mundial quase unânime. Há duas maneiras para que
Washington responda a ameaças que são, em parte, engendradas
por suas ações e proclamações surpreendentes.
Uma delas é tentar aliviar as ameaças por meio de alguma atenção
a queixas legítimas, e algum respeito à ordem mundial e suas
instituições.
A outra seria construir ainda mais espantosos aparelhos de destruição
e domínio, de modo que qualquer desafio que se perceba, por
mais remoto que pareça, possa ser esmagado gerando novos e ainda
maiores desafios.
Noam
Chomsky é ativista político, professor de Lingüística no Massachussets
Institute of Technology. Seu mais recente livro é "Power and
Terror" (Poder e Terror)