"
A confusão do dia-a-dia embaralha também os sentimentos
de uma vida à dois. Saber distinguir amor, paixão e carinho
nos parecem fundamentais para a saúde de qualquer relacionamento.
Quando uma crescente carência toma conta do mundo o caminho é
mesmo identificar as necessidades de compreensão. Nada que uma
boa cultura brega sonorizada não amenize; e a composição
de uma canção não resolva."
Contardo
Calligaris
POR
IVAN MARSIGLIA COM FOTOS DE CHRISTIAN GAUL
EDITED BY VERMONT CAGE
Doutor
Calligaris não é um intelectual de gabinete.
Nascido em Milão, em 1948, este psicanalista de 54
anos rodou meio mundo antes de aterrissar — e se apaixonar
— pelo Brasil. Viajante inveterado, Contardo Calligaris
transita com igual desenvoltura pelas idéias, que expõe
em comentados artigos na Folha de S.Paulo. Também
é autor dos livros Hello Brasil! (Escuta,
1992) e Crônicas do Individualismo Cotidiano (Ática,
1996). O comportamento humano, as relações homem
/mulher, a guerra no Oriente Médio e a cândida
violência brasileira são temas que ele visita
com o mesmo interesse com que morou em Londres, Genebra, Paris,
Nova York e São Paulo. Nas duas últimas, fixou
residência.
1966,
Chamonix, França: Mercedes 190 [ao lado].
Tratava-se de escolher: pagar a mensalidade ou
a gasolina?”
A grande viagem da vida de Contardo começou aos 17,
quando fugiu de casa para morar em Londres. Na capital inglesa
lavou pratos, vendeu cashmere nas ruas e distribuiu
folhetos de boates de striptease. Voltou suavemente obrigado
pelo pai, mas não se sentia mais em casa na Itália.
Em pouco tempo, deixava de lado os jobs que fazia como fotojornalista
e tradutor de romances policiais para estudar filosofia na
Suíça e depois psicanálise na França.
O exílio sem volta incluiu viagens lisérgicas
para Índia e Nepal nos anos 60, sexo livre e militância
na Paris de maio de 68 e a feroz contracultura norte-americana
dos anos 70.
No meio do caminho, aprendeu cinco línguas, passou
por três casamentos, desfrutou da amizade de Roland
Barthes, Jacques Lacan e Italo Calvino e sofreu a angústia
de não pertencer a lugar nenhum. “Viajar deveria
ser proibido”, diz ele, surpreendentemente. “Produz
uma divisão que não sara nunca.” Apenas
uma das aparentes contradições de seu pensamento
inquieto — como a que juntou no mesmo sujeito o gosto
pelo diálogo e a recusa ao pacifismo. “Quando
os aliados bombardeavam Milão na Segunda Guerra, meu
pai, que era antifascista, pedia que as bombas caíssem”,
conta. “Acho que muitas pessoas no Iraque pedem para
elas caírem.”
Em 86, depois de uma palestra em Porto Alegre, conheceu a
também psicóloga Eliana dos Reis, uma gaúcha
intensa, “daquelas que têm a faca na bota”,
como ele gosta de dizer. A paixão à primeira
vista foi registrada em foto. Juntaram escovas de dentes e
filhos de outros casamentos. Na entrevista a seguir, colocamos
o analista no divã.
“O
sexo não é o momento do carinho. Quando os casais
começam a falar como bebês, acabam não
transando mais”
Dizem
que brasileiro é bom de cama. Por quê? Quando
você fala em “sexualidade do brasileiro”,
está se referindo a uma curiosa confluência
entre o que acontece na vida individual e na vida dos
povos. O Brasil foi o maior sistema escravagista do
mundo, e a gente se pergunta se isso acabou direito.
O fato de “nós”, no caso os brasileiros,
sermos sensuais, ou sexuais mesmo, tem a ver com a permanência
dessas relações de domínio escravagista
— que é o domínio do corpo, o “faço
com o seu corpo o que me der na telha”. Esse sadomasoquismo
talvez seja a dinâmica fundamental de qualquer
excitação sexual. E uma das razões
pelas quais há uma dificuldade de se conciliar
sexo e carinho.
Por que é difícil conciliar sexo
e carinho? É possível
ter carinho pela pessoa com quem a gente transa e transar
com a pessoa por quem sentimos carinho. Mas em uma alternância.
O sexo não é o momento do carinho. Quando
as relações se tornam totalmente carinhosas
e as pessoas começam a falar como bebês,
daqui a pouco somos o Mickey e a Minnie e vamos dormir
com o pijaminha da Disney. Pode ser legal, mas aí
a gente vai acabar não transando mais. Por isso
que um bom casal é um casal que briga.
Um bom casal é um casal que briga?! Eu não
acho que as relações “apaziguadas”
sejam as melhores. Nem que seja grande problema, num
casal, de vez em quando voarem uns pratos. É
a briga que permite o sexo. Não que você
precise sair brigando para depois transar. Quero dizer
que a briga serve para quebrar o nhenhenhém.
Porque o sexo implica uma certa distância.
E a idéia muito difundida em revistas
femininas de que, com o tempo, é normal o relacionamento
esfriar e sobrar só o “companheirismo”? Para mim é
mais uma desculpa que outra coisa. Me parece contrário
a tudo o que constato, pois, com poucas exceções,
somos bichos extremamente apaixonados pela repetição.
Nossa regra geral é a mesmice. Então não
vejo por que a mesmice seria broxante. Minha idéia
é que o interesse sexual se perde por preguiça.
Preguiça de transar? É preciso
esforço para manter a vida sexual. O sexo é
um trabalho. Não no sentido de [aponta para
o relógio] “ah, agora vou para o escritório”.
Mas, se você não mantém fantasias
sexuais andando na sua cabeça, num dado momento
a atividade sexual morre. Nossa sexualidade não
tem nada de natural, é ligada a fantasias e só
funciona com elas. A quantidade de casais que param
de transar e se queixam como se fosse “eu deveria
tomar Viagra” é imensa. Mas o primeiro
Viagra é pensar em sexo.
É mais fácil viver sozinho ou
a dois? [Longa pausa]
É difícil responder por causa desse “mais
fácil”. Acho que cada um deve descobrir
se, para ele ou para ela, é mais agradável
viver sozinho ou a dois. Qualquer escolha é legítima,
o problema é que todas têm um custo. Eu
acabo de pedir um Guaraná Diet e poderia envenenar
a bebida com o lamento da Coca que não pedi.
A maior lição da psicanálise é
esta: qualquer desejo implica perdas.
Em outro artigo você afirma que as pessoas
andam “tão preocupadas em preservar suas
liberdades individuais que acabam por preservar a sua
solidão”. É verdade? Eu acho
que, em vez de fugir dos relacionamentos, seria menos
custoso inventar maneiras de convivência em que
a gente pudesse pagar um pouco menos do que a solidão.
A gente tem muito a inventar na maneira de um casal
conviver e negociar a individualidade um do outro. Defendo
as uniões duradouras, porque são mais
interessantes. Acho que muitas separações
— mas, cuidado, não todas, longe disso
— são efeito de preguiças diversas.
Então, valorizo os esforços dos que tentam
ficar juntos.
Ainda sobre relacionamentos, você sempre
pergunta: “Qual é a melhor viagem, visitar
as capitais européias num ‘tour’
de 15 dias ou passar duas semanas numa cidade só
e conhecê-la um pouco?”. O que quer dizer? Quero
dizer que a diversidade das relações é
dramaticamente desinteressante. A grande maioria das
pessoas vive uma série de monogamias. São
poucas as que preferem uma vida de quinze capitais em
quinze dias. E a verdade é que isso é
muito pouco interessante. Porque não existe nada
de mais interessante no mundo do que as pessoas. E,
se você inventa um sistema de relações
que na verdade é um sistema de não-rela-ções,
se priva do que há de melhor na vida.
Mas não há um certo prazer na
variedade? Não
é a variedade, mas o desconhecido que tem valor
erótico. Se você está disposto a
ter uma transa num canto escuro de um parque com alguém
que nunca viu, isso é uma fantasia sexual do
caramba. Só não esqueça a camisinha.
Mas ser galinha e ter um flerte com uma conversa babaca
a cada dois dias não tem interesse nenhum, nem
sexual, nem individual. Entendo perfeitamente uma atividade
sexual de sauna, de clube de swing, mas essa do “eu
flerto, bato um papinho, dou dois beijos e passo para
outra” não tem nenhuma graça.
“Defendo
as uniões duradouras porque são mais interessantes.
Acho que muitas separações são efeito
de preguiças diversas”
“1977,
Cérisy La Salle: conversa com Roland Barthes,
o mestre e o amigo que mais contou; 1990, Uruguai: com
meus filhos Ramiro, Ricardo e Max; 1999, Nova York:
amigos como Walter Salles sempre nos visitam”
Fidelidade
é essencial num relacionamento?
[Pensa] Não tenho valores
absolutos sobre isso. Mas existe a ideologia, muito cool,
de que “tudo bem, nós somos liberados, transa
com quem você quiser e eu também”. Só
que, na maioria dos casos, os dois vão sofrer uma barbaridade
com isso: vão ter ciúmes, morder as unhas, se
odiar e acabar numa merda. Na grandíssima maioria dos
casos é uma mentira.
Existe uma apologia do não-compromisso?
É possível. O que me espanta
na geração dos meus filhos, que têm entre
19 e 24 anos, é que eles se engajam em relações
importantes, que duram anos, mas só são possíveis
numa espécie de negação absoluta. É
evidente que estão construindo uma vida a dois, monogâmica,
mas existe uma atuação teatral do não-compromisso,
uma negação da retórica do amor. Agora,
eles praticam a fala de nenê. Nê-nê-nê!
[Gargalhadas] Isso é uma praga!
Que outras diferenças você vê?
Outra coisa que noto é que eles
não parecem tão interessados pelo sexo quanto
a minha geração. A liberação sexual
nos anos 60 era um tema ideológico. Era uma obrigação
transar em grupo, trocar de parceiro na cama... E acho, mas
pode ser só impressão, que a atividade fantasmática
sexual é pouco presente nos jovens de 20 anos agora.
Isso pode até ser positivo, porque diminui as expectativas...
Mas, não sei. Acho menos divertido.
Por que as novas gerações estariam menos interessadas
em sexo?
A velha idéia é de que
a proibição fazia o “sal” da coisa.
E uma vez que a sexualidade foi liberada... Mas não
acredito nisso. A hipótese que levanto é que
a nova geração erotiza menos as relações
de domínio. E, portanto, falta o elemento que era para
as gerações precedentes uma das fontes essenciais
da excitação. Quando falo “erotizar as
formas de domínio”, não significa nada
de espantoso. É aquele casal que se adora e na hora
da transa ele diz “toma aqui, sua puta!” e os
dois gozam freneticamente. A pergunta é: as novas gerações
são capazes de inventar uma sexualidade diferente?
É possível. Mas esse déficit é
visível na indústria da “mascarada sadomasoquista”
e nos filmes pornôs, em que um strip ou uma transa não
interessam mais — o negócio é “a
puta violentada pelo policial”. Também há
um fundo sadomasoquista no movimento gótico, no punk,
nos vampiros, na cultura da tatuagem e do piercing.
A internet atrapalha as relações humanas?
Pelo contrário. A internet é
um instrumento incrível de reativação
das fantasias. As pessoas se encontram pra caramba graças
a ela. Se eu tivesse como fantasia erótica transar
de garrafa a 12 metros de profundidade com um buraco na minha
roupa de borracha, onde ia achar alguém que gostasse
da mesma coisa? Um senhor de meia-idade, casado, cuja grande
emoção sexual é se vestir de mulher e
se masturbar olhando no espelho poderia passar a vida toda
convencido de que é uma monstruosidade, um freak. A
internet permitiu a milhões de pessoas assim descobrirem
que não eram as únicas.
“1951,
Milão: eu, aos 3 anos, na Piazza Del Duomo
com meu irmão mais velho, Bernardino. Esse
penteado incrível durará por mais
cinco anos; 1966, África Oriental: quinze
anos depois, meu irmão e eu passamos dois
meses lá”
Oito
normas de conduta cotidiana para o cidadão
moderno
por
Contardo Calligaris*
1.
Você pode escolher entre ficar em casa
ou pegar a estrada e, sem dúvida, faz
e fará um pouco dos dois. Mas, quando
estiver em casa, tente não sonhar com
a estrada e, quando estiver na estrada, tente
não lamentar o calor do lar. Vivemos
de sonhos e de nostalgias: é necessário
cuidar para que essa alternância não
nos mantenha constantemente afastados do momento
presente.
2. Quando alguém pedir esmola ou ajuda,
dê (na medida de seu possível)
o que está sendo pedido. Não
tente moldar o desejo de quem pede, oferecendo
pão e leite em vez do trocado. A humanidade
dos mais desprovidos se refugia e resiste
justamente na capacidade de continuar desejando
o supérfluo.
3. Todos os pedidos podem ser recusados, mas
devem ser, ao menos, reconhecidos. Portanto
é proibido recusar sem falar.
4. Trate como íntimo só quem
poderia sem riscos lhe devolver a mesma cordialidade.
5. Caso você pretenda mudar o mundo,
lembre-se de que, provavelmente, você
não está à altura do
mundo mudado segundo seu desejo. Se pretende
transformar seu parceiro ou sua parceira,
lembre-se de que você, provavelmente,
não está à altura do
parceiro ou parceira assim transformados.
Quem quer mudar as coisas facilmente esquece
de contar-se entre os itens a serem mudados.
6. Qual é a melhor viagem: visitar
as capitais européias num “tour”
de 15 dias ou passar duas semanas numa cidade
só e conhecê-la um pouco? É
mais interessante manter um casamento complicado
do que multiplicar as ou os amantes. O mesmo
vale para os amigos e relações
em geral.
7.
Uma vez por semana, durante uma hora, sente-se
numa esquina de sua cidade e contemple os
passantes. Tente imaginar a variedade das
vidas, a dignidade de todas. Se você
tem filhos, faça o exercício
duas vezes por semana: será de grande
ajuda para aceitar que a vida deles vale a
pena, mesmo se não corresponde em nada
aos seus sonhos.
8.
Considere como verdade absoluta que é
possível ter uma vida boa e justa sem
acreditar numa verdade absoluta.
*publicado originalmente
no suplemento “Mais!”, da Folha
de S.Paulo, de 13/10/2002.
Veja
o que Contardo Calligaris falou sobre drogas,
terapias alternativas, pacifismo, guerra,
nazismo, Saddam, ativismo, consumismo e viagens
na TRIP#109