Os que não pensam naquilo
[por Alessandra Kormann e Paulo Sampaio]
[edição digital: vox-lebon]
| Pedro Azevedo/ Folha Imagem |
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| A empresária Mádava Lila, 38, que está abstinente
desde aos 27 anos |
Não
faço sexo há nove anos." Convenhamos: em uma sociedade como a nossa,
espécie de paraíso do fio-dental, não é fácil explicar uma declaração
dessas. Especialmente se vier de um homem de 39 anos, que ficou abstinente
no período apontado pelas pesquisas como aquele em que as pessoas
mais transam (entre 30 e 39 anos).
"Gosto muito de mulher", diz o vendedor Nélson G., 39, derrubando
a primeira hipótese que vem à cabeça, a de que ele pode ser um homossexual
não assumido. Nelson suspendeu suas atividades sexuais -inclusive
masturbação- aos 30, depois de uma experiência de cinco anos com uma
namorada com quem se relacionava "só para transar" e de frequentar
"seguidamente" casas de massagem. "Não sentia mais prazer naquelas
situações", diz.
A compulsão que levou Nélson G. à abstinência é só um dos motivos
citados por pessoas que decidiram zerar sua vida sexual, navegando
contra a corrente majoritária que prega que a sexualidade não é só
um direito -é quase dever, até por uma questão de saúde física e mental.
Religião, repulsa ou desinteresse são outras razões para uma vida
assexuada. Para o senso comum, é algo como abrir mão da felicidade.
Mas viver bem sem sexo é possível, garantem os "não-praticantes".
"Todo prazer emana de Deus. Meu propósito é chegar a Ele, mas existe
um universo de coisas materiais no caminho. O que eu faço é controlar
meus sentidos, valorizar o espírito", diz a empresária Mádava Lila,
38, abstinente desde os 27.
Mádava entrou para o Hare Krishna em 1985 e, na fase dos estudos iniciais
(a "bramatchari", aquela em que os calouros se vestem de laranja),
ficou sem transar. O voto de abstinência foi abandonado dois anos
depois, quando se casou e teve uma filha, mas retomado em 92, ao se
separar. "Em branco" desde então, garante que não faz esforço nenhum.
"O voto nunca deve te sacrificar ou deixar infeliz. As pessoas não
entendem que é possível fazer essa opção; elas acham que é obrigação",
diz Mádava, que explica que nem todo hare krishna é casto.
Sem qualquer razão religiosa ou filosófica, a psicanalista Cláudia
J., 41, justifica sua abstinência pela falta de um bom motivo para
transar. "Não vejo esse sentido que as pessoas atribuem ao sexo. Já
tive prazer, mas essa história de trocar fluidos todo dia, dormir
na mesma cama com alguém a vida inteira, Deus me livre", diz Cláudia,
que nunca casou, mas já teve experiências com homens e mulheres.
Sua bissexualidade bissexta é mais um sinal de indiferença do que
de apetite. Ela explica que suas relações aconteceram sempre que o
outro quis muito, não importando o gênero da pessoa. "Em uma sociedade
como a nossa, só fica sem sexo quem realmente não quer. Sempre aparece
alguém: às vezes, eu não me recuso a fazer, mas não procuro."
A "apatia" de Cláudia começou na adolescência. Ela diz que não se
achava atraente na escola, por isso "desligou inconscientemente" a
chave que acionava o dispositivo sexual. "Percebo claramente, hoje,
que escolhi uma espécie de 'conforto emocional'. Sempre tive pavor
de ficar naquela dependência de um telefonema, um olhar, um elogio.
Fugi mesmo disso", diz.
Sinal de doença?
O sexo como manifestação de saúde é uma questão que divide os próprios
especialistas. "Existe uma discussão muito forte se a ausência de
desejo é uma doença. Usamos a palavra disfunção quando isso causa
algum desconforto, ansiedade ou sofrimento", explica o médico Edson
Duarte Moreira Jr., pesquisador do laboratório de bioestatística da
Fundação Oswaldo Cruz, de Salvador e coordenador da parte brasileira
do Estudo Global sobre Sexualidade Humana, realizado em 29 países,
cujos resultados foram divulgados neste ano.
Moreira explica que o peso social do rótulo -no caso, o de assexuado-
pode ser maior do que o desconforto do paciente com a falta de sexo.
"Não há nada de errado em não ter desejo sexual, mesmo se a pessoa
for jovem, desde que isso não a incomode."
Segundo a pesquisa, feita com gente de mais de 40 anos que vive em
áreas urbanas, 12% dos brasileiros e 18% das brasileiras dizem não
ter desejo sexual. "Há mais mulheres que não têm desejo porque a vida
reprodutiva delas dura menos, a menopausa interfere um pouco na libido",
explica. Falta de desejo e frigidez, porém, são coisas diferentes.
"As assexuadas não têm o impulso, a atração sexual. As frígidas têm,
mas não sentem prazer", diz o pesquisador.
Essa maioria feminina se repete nos consultórios de psicanalistas.
"Na minha clínica, elas são 90% dos pacientes que procuram ajuda.
A mulher se questiona mais, o homem tem mais dificuldade nisso", diz
Walkiria Grant, professora-doutora do Instituto de Psicologia da USP.
Boa parte delas é empurrada pelo próprio marido, incomodado por se
sentir incapaz de dar prazer à parceira.
São mais comuns do que se pensa casamentos em que o sexo foi praticamente
descartado -só que ninguém fala disso. "Se a sua reportagem fosse
sobre pessoas que têm uma vida sexual ativa, certamente você encontraria
gente que se identificaria com orgulho. Mas, se você diz que não transa,
as pessoas te olham com espanto, até com pena", compara o tesoureiro
H.P., 41.
Ele diz que nunca comenta com ninguém que sua mulher não gosta de
transar e que, em 18 anos de casamento, eles tiveram pouquíssimas
relações sexuais. A última vez foi no começo do ano. Ele também não
faz muita questão. "Existem coisas mais importantes: companheirismo,
harmonia familiar, situação financeira estável. Em nome disso, não
procuro relações fora do casamento nem me queixo da situação. Não
estou feliz, mas estou conformado."
Os sem-desejo
Se no sexualizado Brasil não se fala disso, nos EUA e Inglaterra já
há movimentos e sites de assexuados que se juntaram para defender
o direito de não serem vistos como uma anormalidade ambulante.
"Eu comecei a usar a palavra assexuado aos 15 anos, embora tivesse
consciência de que era assim antes disso", diz David Jay, 33, mentor
do site Aven (Asexual Visibility and Education Network, rede de visibilidade
para os assexuados), criado há dois anos e com mais de 500 integrantes.
Declarar-se assexuado hoje, segundo David, é tão chocante quanto era
assumir-se homossexual na década de 50. "A diferença é que gays e
lésbicas costumam ser alvo de alguma violência; os assexuados, não.
Em contrapartida, somos menos compreendidos e temos mais dificuldade
para encontrar um relacionamento íntimo", diz David. Mas, afinal,
o que alguém que se declara "assexuado" chama de "relacionamento íntimo"?
David explica que muitos experimentam uma forte atração romântica.
"Quase todos desejam namorar, casar, mas isso é difícil porque a maioria
das pessoas equipara intimidade com sexo", explica.
Ele defende um "romantismo casto". "Por que o sexo tem que ser obrigatório?
Eu não acho impossível amar alguém, ter forte identificação, sem querer
transar com ele", diz.
A coordenadora do núcleo de casal e família da PUC-SP, Magdalena Ramos,
torce o nariz para esse tipo de relacionamento. "Viver sem sexo é
recortar ou abdicar de uma parte boa da vida, gratificante, com que
a natureza nos brinda. Quando falta sexo em um casamento, uma parte
do relacionamento está alterado, e a relação como um todo precisa
ser cuidada", diz.
Ela explica, contudo, que "isso é bastante frequente". Segundo Magdalena,
o brasileiro se acostumou a um superapelo sexual na mídia e passou
a falar mais de sexo do que fazer. "Eu acho que é muito blablablá
essa idéia de que a brasileira é mais fogosa. Ela é desinibida, usa
fio-dental, mas isso não significa ser uma deusa na cama. Neste país,
para se vender sabonete ou eletrodoméstico, tem que mostrar mulher
pelada. Isso leva as pessoas a dizerem que transam muito", diz.
Desistência
A atriz e ex-símbolo sexual Lady Francisco confirma facilmente a tese.
Aos 63 anos, se declara assexuada há 15. "Deixei de fazer sexo com
48 anos. Representei muito a mulher fogosa, quente, saía com um, outro,
mas aí descobri que não tinha tesão. Sexo pra mim não vale nada."
A atriz conta que seu último relacionamento, com um homem quase 30
anos mais jovem, durou três anos, entre 1984 e 87. Como não tinha
orgasmo, conta, decidiu desistir do sexo.
"Tem hora em que sinto falta de um companheiro, mas não de sexo. Há
uns cinco anos, coloquei um anúncio no jornal procurando alguém que
gostasse de planta, cachorro e que fosse impotente. Recebi um monte
de carta, até de presidiário. Conheci algumas pessoas, mas não deu
certo."
A artista plástica carioca Marília Kranz, 66, é outra praticante aposentada
há oito anos, desde que viu um amigo querido morrer de Aids. "Não
sei por que essa insistência de que tem de fazer sexo até o fim da
vida. Ninguém tem que transar coisa nenhuma. Cada um tem uma necessidade
pessoal de sexo. É preciso ter a vida de acordo com aquilo que cada
um é", diz.
Garota liberada no Rio dos anos 60, ela teve uma vida sexual mais
do que ativa. "Em 1956, quando tinha 18 anos e resolvi que ia dormir
com alguém, isso era uma coisa impensável naquela época. Na juventude,
minha libido era altíssima."
Para ela, a sexualidade não faz falta. "Quando eu parei, já estava
com mais de 50 anos. Acho que, com o envelhecimento, a mulher perde
o poder de sedução. Numa sociedade machista, significa que você vale
menos. Hoje isso seria uma perda de qualidade na minha vida. E eu
tive uma vida maravilhosa."
Quem está em plena idade da sedução, porém, enfrenta mais problemas.
"Depois que conto que não estou interessada, os homens parecem tentar
ainda mais sair comigo. Acho que vira um desafio me levar para a cama.
Quando finalmente eu os convenço, eles me deixam sozinha e nunca mais
falam comigo", conta a norte-americana Catherine Perfect, 25, uma
ruiva de olhos verdes com 1,67 m e 54 kg, também filiada à rede de
assexuados Aven (http://www.asexuality.org/).
Catherine diz que a assexualidade não a incomoda mais. "Eu achava
difícil ser como sou, porque a nossa cultura empurra a noção de que,
para ser 'normal', você precisa ter um relacionamento. Não penso mais
assim, porque os casados e namorados que conheço não estão muito felizes
-na maioria das vezes, é exatamente o oposto. Às vezes, me sinto com
sorte por não ter que me preocupar com o drama que parece inerente
aos relacionamentos", afirma.
Para Catherine, a aceitação da sociedade é questão de tempo. "À medida
que o tempo passar e existirem mais reportagens como esta, haverá
mais consciência de gente como nós, de um modo geral. Então vai haver
menos estigma ligado à palavra 'assexuado'", aposta