"Sexo: há quem não pense nisso!!!"
Rio de Janeiro - 14/10/2003
ENFIM: A ERA DE AQUÁRIO
voxlebon online

Os que não pensam naquilo
[por Alessandra Kormann e Paulo Sampaio]
[edição digital: vox-lebon]

Pedro Azevedo/ Folha Imagem
A empresária Mádava Lila, 38, que está abstinente desde aos 27 anos

Não faço sexo há nove anos." Convenhamos: em uma sociedade como a nossa, espécie de paraíso do fio-dental, não é fácil explicar uma declaração dessas. Especialmente se vier de um homem de 39 anos, que ficou abstinente no período apontado pelas pesquisas como aquele em que as pessoas mais transam (entre 30 e 39 anos).

"Gosto muito de mulher", diz o vendedor Nélson G., 39, derrubando a primeira hipótese que vem à cabeça, a de que ele pode ser um homossexual não assumido. Nelson suspendeu suas atividades sexuais -inclusive masturbação- aos 30, depois de uma experiência de cinco anos com uma namorada com quem se relacionava "só para transar" e de frequentar "seguidamente" casas de massagem. "Não sentia mais prazer naquelas situações", diz.

A compulsão que levou Nélson G. à abstinência é só um dos motivos citados por pessoas que decidiram zerar sua vida sexual, navegando contra a corrente majoritária que prega que a sexualidade não é só um direito -é quase dever, até por uma questão de saúde física e mental. Religião, repulsa ou desinteresse são outras razões para uma vida assexuada. Para o senso comum, é algo como abrir mão da felicidade.

Mas viver bem sem sexo é possível, garantem os "não-praticantes". "Todo prazer emana de Deus. Meu propósito é chegar a Ele, mas existe um universo de coisas materiais no caminho. O que eu faço é controlar meus sentidos, valorizar o espírito", diz a empresária Mádava Lila, 38, abstinente desde os 27.

Mádava entrou para o Hare Krishna em 1985 e, na fase dos estudos iniciais (a "bramatchari", aquela em que os calouros se vestem de laranja), ficou sem transar. O voto de abstinência foi abandonado dois anos depois, quando se casou e teve uma filha, mas retomado em 92, ao se separar. "Em branco" desde então, garante que não faz esforço nenhum.

"O voto nunca deve te sacrificar ou deixar infeliz. As pessoas não entendem que é possível fazer essa opção; elas acham que é obrigação", diz Mádava, que explica que nem todo hare krishna é casto.

Sem qualquer razão religiosa ou filosófica, a psicanalista Cláudia J., 41, justifica sua abstinência pela falta de um bom motivo para transar. "Não vejo esse sentido que as pessoas atribuem ao sexo. Já tive prazer, mas essa história de trocar fluidos todo dia, dormir na mesma cama com alguém a vida inteira, Deus me livre", diz Cláudia, que nunca casou, mas já teve experiências com homens e mulheres.

Sua bissexualidade bissexta é mais um sinal de indiferença do que de apetite. Ela explica que suas relações aconteceram sempre que o outro quis muito, não importando o gênero da pessoa. "Em uma sociedade como a nossa, só fica sem sexo quem realmente não quer. Sempre aparece alguém: às vezes, eu não me recuso a fazer, mas não procuro."

A "apatia" de Cláudia começou na adolescência. Ela diz que não se achava atraente na escola, por isso "desligou inconscientemente" a chave que acionava o dispositivo sexual. "Percebo claramente, hoje, que escolhi uma espécie de 'conforto emocional'. Sempre tive pavor de ficar naquela dependência de um telefonema, um olhar, um elogio. Fugi mesmo disso", diz.

Sinal de doença?
O sexo como manifestação de saúde é uma questão que divide os próprios especialistas. "Existe uma discussão muito forte se a ausência de desejo é uma doença. Usamos a palavra disfunção quando isso causa algum desconforto, ansiedade ou sofrimento", explica o médico Edson Duarte Moreira Jr., pesquisador do laboratório de bioestatística da Fundação Oswaldo Cruz, de Salvador e coordenador da parte brasileira do Estudo Global sobre Sexualidade Humana, realizado em 29 países, cujos resultados foram divulgados neste ano.

Moreira explica que o peso social do rótulo -no caso, o de assexuado- pode ser maior do que o desconforto do paciente com a falta de sexo. "Não há nada de errado em não ter desejo sexual, mesmo se a pessoa for jovem, desde que isso não a incomode."

Segundo a pesquisa, feita com gente de mais de 40 anos que vive em áreas urbanas, 12% dos brasileiros e 18% das brasileiras dizem não ter desejo sexual. "Há mais mulheres que não têm desejo porque a vida reprodutiva delas dura menos, a menopausa interfere um pouco na libido", explica. Falta de desejo e frigidez, porém, são coisas diferentes. "As assexuadas não têm o impulso, a atração sexual. As frígidas têm, mas não sentem prazer", diz o pesquisador.

Essa maioria feminina se repete nos consultórios de psicanalistas. "Na minha clínica, elas são 90% dos pacientes que procuram ajuda. A mulher se questiona mais, o homem tem mais dificuldade nisso", diz Walkiria Grant, professora-doutora do Instituto de Psicologia da USP. Boa parte delas é empurrada pelo próprio marido, incomodado por se sentir incapaz de dar prazer à parceira.

São mais comuns do que se pensa casamentos em que o sexo foi praticamente descartado -só que ninguém fala disso. "Se a sua reportagem fosse sobre pessoas que têm uma vida sexual ativa, certamente você encontraria gente que se identificaria com orgulho. Mas, se você diz que não transa, as pessoas te olham com espanto, até com pena", compara o tesoureiro H.P., 41.

Ele diz que nunca comenta com ninguém que sua mulher não gosta de transar e que, em 18 anos de casamento, eles tiveram pouquíssimas relações sexuais. A última vez foi no começo do ano. Ele também não faz muita questão. "Existem coisas mais importantes: companheirismo, harmonia familiar, situação financeira estável. Em nome disso, não procuro relações fora do casamento nem me queixo da situação. Não estou feliz, mas estou conformado."

Os sem-desejo
Se no sexualizado Brasil não se fala disso, nos EUA e Inglaterra já há movimentos e sites de assexuados que se juntaram para defender o direito de não serem vistos como uma anormalidade ambulante.

"Eu comecei a usar a palavra assexuado aos 15 anos, embora tivesse consciência de que era assim antes disso", diz David Jay, 33, mentor do site Aven (Asexual Visibility and Education Network, rede de visibilidade para os assexuados), criado há dois anos e com mais de 500 integrantes.

Declarar-se assexuado hoje, segundo David, é tão chocante quanto era assumir-se homossexual na década de 50. "A diferença é que gays e lésbicas costumam ser alvo de alguma violência; os assexuados, não. Em contrapartida, somos menos compreendidos e temos mais dificuldade para encontrar um relacionamento íntimo", diz David. Mas, afinal, o que alguém que se declara "assexuado" chama de "relacionamento íntimo"?

David explica que muitos experimentam uma forte atração romântica. "Quase todos desejam namorar, casar, mas isso é difícil porque a maioria das pessoas equipara intimidade com sexo", explica.

Ele defende um "romantismo casto". "Por que o sexo tem que ser obrigatório? Eu não acho impossível amar alguém, ter forte identificação, sem querer transar com ele", diz.

A coordenadora do núcleo de casal e família da PUC-SP, Magdalena Ramos, torce o nariz para esse tipo de relacionamento. "Viver sem sexo é recortar ou abdicar de uma parte boa da vida, gratificante, com que a natureza nos brinda. Quando falta sexo em um casamento, uma parte do relacionamento está alterado, e a relação como um todo precisa ser cuidada", diz.

Ela explica, contudo, que "isso é bastante frequente". Segundo Magdalena, o brasileiro se acostumou a um superapelo sexual na mídia e passou a falar mais de sexo do que fazer. "Eu acho que é muito blablablá essa idéia de que a brasileira é mais fogosa. Ela é desinibida, usa fio-dental, mas isso não significa ser uma deusa na cama. Neste país, para se vender sabonete ou eletrodoméstico, tem que mostrar mulher pelada. Isso leva as pessoas a dizerem que transam muito", diz.

Desistência
A atriz e ex-símbolo sexual Lady Francisco confirma facilmente a tese. Aos 63 anos, se declara assexuada há 15. "Deixei de fazer sexo com 48 anos. Representei muito a mulher fogosa, quente, saía com um, outro, mas aí descobri que não tinha tesão. Sexo pra mim não vale nada."

A atriz conta que seu último relacionamento, com um homem quase 30 anos mais jovem, durou três anos, entre 1984 e 87. Como não tinha orgasmo, conta, decidiu desistir do sexo.

"Tem hora em que sinto falta de um companheiro, mas não de sexo. Há uns cinco anos, coloquei um anúncio no jornal procurando alguém que gostasse de planta, cachorro e que fosse impotente. Recebi um monte de carta, até de presidiário. Conheci algumas pessoas, mas não deu certo."

A artista plástica carioca Marília Kranz, 66, é outra praticante aposentada há oito anos, desde que viu um amigo querido morrer de Aids. "Não sei por que essa insistência de que tem de fazer sexo até o fim da vida. Ninguém tem que transar coisa nenhuma. Cada um tem uma necessidade pessoal de sexo. É preciso ter a vida de acordo com aquilo que cada um é", diz.

Garota liberada no Rio dos anos 60, ela teve uma vida sexual mais do que ativa. "Em 1956, quando tinha 18 anos e resolvi que ia dormir com alguém, isso era uma coisa impensável naquela época. Na juventude, minha libido era altíssima."

Para ela, a sexualidade não faz falta. "Quando eu parei, já estava com mais de 50 anos. Acho que, com o envelhecimento, a mulher perde o poder de sedução. Numa sociedade machista, significa que você vale menos. Hoje isso seria uma perda de qualidade na minha vida. E eu tive uma vida maravilhosa."

Quem está em plena idade da sedução, porém, enfrenta mais problemas. "Depois que conto que não estou interessada, os homens parecem tentar ainda mais sair comigo. Acho que vira um desafio me levar para a cama. Quando finalmente eu os convenço, eles me deixam sozinha e nunca mais falam comigo", conta a norte-americana Catherine Perfect, 25, uma ruiva de olhos verdes com 1,67 m e 54 kg, também filiada à rede de assexuados Aven (http://www.asexuality.org/).

Catherine diz que a assexualidade não a incomoda mais. "Eu achava difícil ser como sou, porque a nossa cultura empurra a noção de que, para ser 'normal', você precisa ter um relacionamento. Não penso mais assim, porque os casados e namorados que conheço não estão muito felizes -na maioria das vezes, é exatamente o oposto. Às vezes, me sinto com sorte por não ter que me preocupar com o drama que parece inerente aos relacionamentos", afirma.

Para Catherine, a aceitação da sociedade é questão de tempo. "À medida que o tempo passar e existirem mais reportagens como esta, haverá mais consciência de gente como nós, de um modo geral. Então vai haver menos estigma ligado à palavra 'assexuado'", aposta