Meninos e Meninas
 

GAROTA, profissão: programa
TEXTO Roberta Sendacz
FOTOS Nino Andrés

EDIÇÃO DIGITAL Vox-Lebon

Elas são supergananciosas, fazem tudo por dinheiro. Em vez de seguir a profissão que escolheram — e poderiam exercer —, preferiram se vender.
 


Elas têm cara de cheerleaders, meninas de torcida americana que ficam chacoalhando o pompom nos intervalos dos jogos dos meninos. Mas a função delas em relação aos homens não é tão ingênua assim. À noite, quando todos os gatos são pardos, trabalham como garotas de programa, por várias razões. Dani, de 25 anos, acha a profissão muito glamourosa. Michele, de 19, faz para ajudar os pais. Tatiane, de 23, é escort girl e gosta de presentes, e Rhayara, de 24, foi sendo levada...
A prostituição entre “meninas de família” é um poço sem fundo, como apostar em cavalos. As garotas vão ganhando dinheiro e ficando viciadas na brincadeira. Tem remédio? Sim, um grande amor, tipo Richard Gere no filme Uma Linda Mulher, talvez possa tirá-las do negócio. E que negócio.
As garotas que estudam ou estudaram como toda menina de classe média faturam mais ou menos 6 mil r$ por mês. Muito mais que se trabalhassem na profissão que escolheram. Dani vai fazer Direito neste ano, Michele está no primeiro ano de relações públicas, Tatiane faz administração e Rhayara trancou educação física.
Só que ninguém quer colocar a carreira de prostituta no currículo. Hoje se discute muito a questão da legalização da profissão, o que não mudaria muito a vida dessas quatro meninas que encaram o lance como coisa passageira e não têm a mínima intenção de tornar público o que fazem, das 8 da noite às 5 da manhã.

De programa, não: Tatiane é escort girl
Ela não gosta de dizer que faz programa porque sua função é acompanhar “amigos”, como chama os homens com quem sai. O dia-a-dia de Tatiane é jantar nos melhores restaurantes da cidade e ganhar presentes caríssimos dos homens. Em troca, pode ir para cama ou não com eles. “Só transo quando estou a fim”, diz. “Não me sinto obrigada a fazer sexo só por causa dos presentes”, completa ela, que já ganhou até um carro zerinho de um estrangeiro com quem saiu durante um ano. Ela também está acostumada a receber mil jóias dos tais amigos. Tatiane escolheu este nome para se esconder enquanto também ganha a vida como dançarina numa boate em São Paulo e é dona de uma loja no interior. É bem cuidada: já colocou prótese nos peitos e arrebitou o nariz. “O homem precisa ver uma coisa bonitinha. A mulher fica em casa, toda feia, relaxada, dá para entender”, diz.

 

Personal vamp: Rhayara
“Não é trabalho, é diversão”, diz Rhayara, o nome fictício de uma personal trainer que não ganha muito dinheiro dando aula, por isso se prostitui e faz shows à noite. Começou do nada, por curiosidade e vontade de ser mais rica. “Precisar me prostituir, eu não precisaria, mas o dinheiro é muito fácil”, diz. Para quem vê de fora, a vida de Rhayara não parece muito complicada. Ela é casada e seu marido sabe de tudo: “A gente tem um relacionamento aberto”, diz.
Apesar de ter “dono”, comporta-se como uma companhia completa aos homens. Diz fazer de tudo, sem restrições, na cama. “Não tenho nojo de nenhum homem”, avalia. Prefere os que conversam e a tratam como amiga.
Rhayara às vezes entra em crise e se pergunta o que está fazendo da vida. Quando isso acontece, afasta os pensamentos e manda bala no trabalho. “É outro mundo, você encontra uma pessoa, negocia valores, depois vai embora”, explica. No dia seguinte, sem crise, acorda cedo e vai dar aula de ginástica na academia.

Satisfação garantida: Dani
Saiu de Porto Alegre e veio para São Paulo procurar trabalho, quando uma amiga ofereceu-lhe que fizesse shows eróticos e “alguns programas”. Topou na hora e está na noite desde outubro de 2001. “Se eu não gostasse, não faria”, diz Dani, que tem o corpo todo sarado porque passa horas na academia se preparando para as três transas que tem por noite.
O sonho de sua vida é morar e trabalhar no exterior como advogada. Mas só daqui a cinco anos, quando também pretende ter filho e talvez casar. Até pouco tempo atrás tinha namorado, mas ele desmanchou quando descobriu como ela ganhava a vida.
Hoje, Dani diz não precisar de namorado porque se sente realizada com os programas. “É muito glamouroso, os homens te acham linda, têm vontade de ficar contigo, o pessoal elogia muito”, diz, apesar de nunca ter se apaixonado por nenhum cliente. O lado ruim da profissão: a discriminação por parte da sociedade. Para evitar o preconceito, Dani nem conta o que faz: “Digo que sou promotora de eventos”.

Puro dinheiro:
Michele

Quando percebeu que não iria muito longe se dependesse do dinheiro dos pais, Michele resolveu virar garota de programa. Hoje, paga a faculdade e vive o sonho de estar construindo uma vida melhor. Logo no primeiro dia, contou para a mãe. “Ela tinha a obrigação de saber, a gente nunca sabe quem vai encontrar pela frente”, diz. A mãe resolveu apoiar a filha. Mesmo assim, a vida de Michele não é fácil. Nos primeiros quatro meses de profissão voltava para casa chorando de desgosto. Essa fase só passou quando conseguiu comprar um carro e viu que poderia sustentar seus luxos e sua família. Roqueira por natureza, a garota que só usa jeans e camiseta para ir à faculdade transforma-se durante a noite. Veste roupas insinuantes e enfrenta os clientes que freqüentam uma boate famosa de São Paulo. “Tenho um que me paga 1.000 r$ por noite, às vezes só para conversar”, diz. Uma vez se apaixonou por um cliente e foi um martírio, a história não foi para a frente porque ele não segurou a onda. Beija na boca? Nunca, só do fulano que realmente mexeu com sua cabeça.

Trabalho de verdade
Um projeto de lei que pretende regulamentar a prostituição circula pela Câmera dos Deputados para assegurar que garotas de programa tenham seus direitos respeitados, principalmente os de assistência médica e aposentadoria. O deputado federal Fernando Gabeira, seu autor, vai se dedicar a ele porque “elas têm que sair da irregularidade. É uma profissão como qualquer outra”, avalia.
Segundo Gabeira, as prostitutas têm muita importância na sociedade, por divulgar campanhas contra DSTs e Aids. “Até ganharam um prêmio do governo. Elas usam camisinha mais que as mulheres em geral (67% contra 20%) e explicam aos homens o porquê de se usar”, afirma.
Desde 1940, a prostituição não é proibida no Brasil, nem a prostituta punida. Mas o que falta, conforme o projeto, é seguir o modelo da Alemanha e Holanda, onde podem exigir seus direitos.
Deputados desses dois países devem desembarcar no Brasil para fazer a cabeça dos demais parlamentares de que a regulamentação não vai aumentar o número de prostitutas, a maior insegurança em relação à regulamentação, segundo Gabeira.

PROFISSÃO: MICHÊ

É fácil encontrar garotos de programa dispostos a dar entrevista. Em geral, eles são falantes e gostam de aparecer. Já com seus clientes, a coisa fica mais difícil. Ao contrário dos héteros, que gabam-se de sair com prostitutas, os gays têm dificuldade de admitir que já pagaram por sexo.

Subsiste a imagem do gay incapaz de encontrar parceiros sexuais por si só e que por causa disso compra prazer e companhia, como a Dama da Noite de Caio Fernando de Abreu.

Um giro pelos pontos de prostituição masculina, no entanto, revela um perfil
de cliente muito diferente. Há, sim, o gay completamente fora dos padrões
dominantes de beleza, mas engana-se quem pensa que vai encontrar apenas bibas mais velhas com um corpinho que já não rende mais no "mercado". Há clientes jovens e muito interessantes.

É o caso de Joaquim(*), um bombeiro de 30 anos, moreno de olhos claros.
Joaquim faria sucesso em qualquer casa gay, mas disse não gostar de
freqüentar "esse tipo de ambiente". Prefere pagar um garoto todo mês, assim que recebe seu pagamento. Apesar de estar sozinho no momento, ele pretende se casar e ter filho e, claro, manter escondida sua preferência sexual.

Essa é quase a mesma história de Marcos (*), 46 anos, que tem um pouco de barriga mas nada que permita que seja chamado de feio. Marcos trabalha como gerente de banco e paga para fazer sexo pelo menos duas vezes por mês. "Eu freqüento também saunas que não têm boys, mas fica difícil para mim explicar para minha mulher porque demorei tanto tempo para chegar do trabalho. Quando saio com um boy, a coisa é muito mais rápida."

Tudo indica, portanto, que dois são os fatores determinantes para a procura de um garoto de programa: a vontade de manter a orientação sexual no anonimato e a rapidez de conseguir uma transa com um corpo interessante.

Isso é confirmado por Max Nascimento, gerente da Fragata, casa conhecida pelos "capetinhas de plantão": "Eu diria que 80% dos clientes são gays que não gostam de freqüentar ambientes GLS, não querem ser reconhecidos, são casados ou estão na mídia." Claro que no caso dos famosos há sempre o risco do boy sair por aí divulgando tudo, mas quem acreditaria nas palavras de um garoto de programa?"

Nascimento aponta outro fator importante que determina a preferência de
alguns gays por garotos de programa: a dificuldade de levar adiante um
relacionamento. "Alguns clientes já tiveram relacionamentos homossexuais,
mas deixaram de acreditar nesse tipo de relação. Preferem pagar a se
envolver emocionalmente. Curiosamente, é esse mesmo tipo que acaba se apaixonando pelo boy."

Para Wagner Medeiros, gerente da Boy's Club, sauna que é ponto de garotos de programa no centro de São Paulo, o cliente "é uma pessoa experiente e que não quer envolvimento afetivo a fundo, mas é muito fácil
ele se apaixonar pelo boy." Provavelmente, a fuga da responsabilidade de uma vida a dois com outro homem é o que torna esses clientes mais vulneráveis à paixão por um indivíduo que, inicialmente, estava interessado só no dinheiro.

Foi essa a história de Amaury, assistente administrativo que durante seis anos manteve um namoro com um garoto de programa. Amaury disse
que eles chegaram até a morar juntos e afirma que foi o fim do amor que
levou à separação. Acreditar que foi isso, diz ele, evita sofrer. O outro
lado da história pode ser contada pelo michê Fred Moreno: "Já tirei muito
dinheiro de caras que se apaixonaram por mim. Eu sou um personagem e finjo que estou apaixonado também, afinal é isso que o cliente espera. Quando não quero mais levar adiante, digo que estou namorando uma menina. Já tive até que trocar de telefone por causa disso."

Fred, contudo, confirma a opinião de Max de que, em geral, os clientes preferem o anonimato. "Na maioria das vezes o cara transa, paga e não quer nem trocar telefone."

Carlos(*), freqüentador da New Space, casa que abriga garotos de programa no centro de São Paulo, disse que já se apaixonou por alguns michês com quem saiu, mas sempre evitou envolvimentos maiores. Tinha medo de ser roubado ou, até mesmo, assassinado, como aconteceu com um professor universitário recentemente.

Por sinal, o medo de sofrer algum tipo de violência é o que move a maioria dos clientes a procurar saunas e casas de massagem ao invés de pegar os garotos nas ruas. Carlos, que tem 58 anos e desde os 30 paga regularmente por serviços sexuais, disse que nos anos 70 e 80 ele só pegava michês nas ruas, mas começou a ouvir muitas histórias
de crime e ficou com medo: "Na sauna é mais seguro e acaba saindo
praticamente o mesmo preço."

Ele afirma que sempre gostou de pagar por sexo, mesmo quando era mais jovem. "Não é porque já tenho cabelos brancos que eu não consigo companheiros por aí. Pelo contrário, tem garoto que até prefere homem mais velho. Eu pago porque não tenho paciência de ficar fazendo caras
e bocas."

Mas de fato há uma freqüência grande da terceira idade nas saunas com garotos de programa. Isso, segundo Nascimento, deve-se à pouca opção de lugares direcionados para gays mais velhos. "Aqui em São Paulo tem só o bailão, o Caneca de Prata, a Fragata e a Lagoa. A Fragata funciona como um clube de amigos. As pessoas costumam se encontrar aqui."

Por esse motivo, a casa apresenta shows semanalmente e possui uma agenda bastante variada de festas e outras atividades, que atraem clientes em busca de diversão e sexo.
Em comum, esses amigos que freqüentam a casa buscam quase sempre o mesmo tipo de garoto: jovem, forte, másculo. Para Wagner, o garoto precisa parecer jovem. "Se o cliente quisesse um efeminado ele iria numa boate gay. O cliente não quer imaginar que está saindo com uma bichinha. A divisão é a seguinte: ou gosta de travesti, ou gosta de garoto de programa."

Nenhum dos clientes entrevistados disse gostar de práticas sexuais não muito comuns, mas essas são confirmadas pelos garotos de programa. Alexandre, que já foi boy da New Space, disse que um cliente jogava tortas na sua cara. Quando não trazia tortas doces de verdade, improvisava uma com creme de barbear.

Alan, que costuma freqüentar a Termas Lagoa, afirma que um cliente
pedia para cuspir na sua cara. Fred Moreno diz que já pediram mais de uma
vez para ele bater: "os caras já chegam pedindo para apanhar. Tem cliente
que sai do quarto todo roxo. Alguns gostam de levar soco, mas já peguei um que quis apanhar de chinelo."

Pedro, boy que atende somente em hotéis e motéis, conta de um cliente que pedia apenas para ele se masturbar e gozar nos objetos do quarto, como o abajur e a mesa de cabeceira. Wagner, no entanto, acha isso tudo normal e conclui: "Coisa estranha é o cliente chegar aqui e levar o boy para viajar para a Europa."

Mas isso também acontece.

(*) Nome trocado.