Personal vamp: Rhayara
“Não é trabalho, é diversão”, diz Rhayara,
o nome fictício de uma personal trainer que não ganha muito
dinheiro dando aula, por isso se prostitui e faz shows à noite.
Começou do nada, por curiosidade e vontade de ser mais rica.
“Precisar me prostituir, eu não precisaria, mas o dinheiro
é muito fácil”, diz. Para quem vê de fora, a vida de Rhayara
não parece muito complicada. Ela é casada e seu marido sabe
de tudo: “A gente tem um relacionamento aberto”, diz.
Apesar de ter “dono”, comporta-se como uma companhia completa
aos homens. Diz fazer de tudo, sem restrições, na cama. “Não
tenho nojo de nenhum homem”, avalia. Prefere os que conversam
e a tratam como amiga.
Rhayara às vezes entra em crise e se pergunta o que está fazendo
da vida. Quando isso acontece, afasta os pensamentos e manda
bala no trabalho. “É outro mundo, você encontra uma pessoa,
negocia valores, depois vai embora”, explica. No dia seguinte,
sem crise, acorda cedo e vai dar aula de ginástica na academia.
Satisfação garantida:
Dani
Saiu de Porto Alegre e veio para São
Paulo procurar trabalho, quando uma amiga ofereceu-lhe que
fizesse shows eróticos e “alguns programas”. Topou na hora
e está na noite desde outubro de 2001. “Se eu não gostasse,
não faria”, diz Dani, que tem o corpo todo sarado porque passa
horas na academia se preparando para as três transas que tem
por noite.
O sonho de sua vida é morar e trabalhar no exterior como advogada.
Mas só daqui a cinco anos, quando também pretende ter filho
e talvez casar. Até pouco tempo atrás tinha namorado, mas
ele desmanchou quando descobriu como ela ganhava a vida.
Hoje, Dani diz não precisar de namorado porque se sente realizada
com os programas. “É muito glamouroso, os homens te acham
linda, têm vontade de ficar contigo, o pessoal elogia muito”,
diz, apesar de nunca ter se apaixonado por nenhum cliente.
O lado ruim da profissão: a discriminação por parte da sociedade.
Para evitar o preconceito, Dani nem conta o que faz: “Digo
que sou promotora de eventos”.
Puro dinheiro:
Michele
Quando percebeu que não iria muito
longe se dependesse do dinheiro dos pais, Michele resolveu
virar garota de programa. Hoje, paga a faculdade e vive o
sonho de estar construindo uma vida melhor. Logo no primeiro
dia, contou para a mãe. “Ela tinha a obrigação de saber, a
gente nunca sabe quem vai encontrar pela frente”, diz. A mãe
resolveu apoiar a filha. Mesmo assim, a vida de Michele não
é fácil. Nos primeiros quatro meses de profissão voltava para
casa chorando de desgosto. Essa fase só passou quando conseguiu
comprar um carro e viu que poderia sustentar seus luxos e
sua família. Roqueira por natureza, a garota que só usa jeans
e camiseta para ir à faculdade transforma-se durante a noite.
Veste roupas insinuantes e enfrenta os clientes que freqüentam
uma boate famosa de São Paulo. “Tenho um que me paga 1.000
r$ por noite, às vezes só para conversar”, diz. Uma vez se
apaixonou por um cliente e foi um martírio, a história não
foi para a frente porque ele não segurou a onda. Beija na
boca? Nunca, só do fulano que realmente mexeu com sua cabeça.
Trabalho de verdade
Um projeto de lei que pretende regulamentar
a prostituição circula pela Câmera dos Deputados para assegurar
que garotas de programa tenham seus direitos respeitados,
principalmente os de assistência médica e aposentadoria. O
deputado federal Fernando Gabeira, seu autor, vai se dedicar
a ele porque “elas têm que sair da irregularidade. É uma profissão
como qualquer outra”, avalia.
Segundo Gabeira, as prostitutas têm muita importância na sociedade,
por divulgar campanhas contra DSTs e Aids. “Até ganharam um
prêmio do governo. Elas usam camisinha mais que as mulheres
em geral (67% contra 20%) e explicam aos homens o porquê de
se usar”, afirma.
Desde 1940, a prostituição não é proibida no Brasil, nem a
prostituta punida. Mas o que falta, conforme o projeto, é
seguir o modelo da Alemanha e Holanda, onde podem exigir seus
direitos.
Deputados desses dois países devem desembarcar no Brasil para
fazer a cabeça dos demais parlamentares de que a regulamentação
não vai aumentar o número de prostitutas, a maior insegurança
em relação à regulamentação, segundo Gabeira.
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PROFISSÃO:
MICHÊ
É fácil encontrar
garotos de programa dispostos a dar entrevista. Em geral,
eles são falantes e gostam de aparecer. Já
com seus clientes, a coisa fica mais difícil.
Ao contrário dos héteros, que gabam-se
de sair com prostitutas, os gays têm dificuldade
de admitir que já pagaram por sexo.
Subsiste a imagem do gay incapaz
de encontrar parceiros sexuais por si só e que
por causa disso compra prazer e companhia, como a Dama
da Noite de Caio Fernando de Abreu.
Um giro pelos pontos de prostituição
masculina, no entanto, revela um perfil
de cliente muito diferente. Há, sim, o gay completamente
fora dos padrões
dominantes de beleza, mas engana-se quem pensa que vai
encontrar apenas bibas mais velhas com um corpinho que
já não rende mais no "mercado".
Há clientes jovens e muito interessantes.
É o caso de Joaquim(*),
um bombeiro de 30 anos, moreno de olhos claros.
Joaquim faria sucesso em qualquer casa gay, mas disse
não gostar de
freqüentar "esse tipo de ambiente". Prefere
pagar um garoto todo mês, assim que recebe seu
pagamento. Apesar de estar sozinho no momento, ele pretende
se casar e ter filho e, claro, manter escondida sua
preferência sexual.
Essa é quase a mesma
história de Marcos (*), 46 anos, que tem um pouco
de barriga mas nada que permita que seja chamado de
feio. Marcos trabalha como gerente de banco e paga para
fazer sexo pelo menos duas vezes por mês. "Eu
freqüento também saunas que não têm
boys, mas fica difícil para mim explicar para
minha mulher porque demorei tanto tempo para chegar
do trabalho. Quando saio com um boy, a coisa é
muito mais rápida."
Tudo indica, portanto, que dois
são os fatores determinantes para a procura de
um garoto de programa: a vontade de manter a orientação
sexual no anonimato e a rapidez de conseguir uma transa
com um corpo interessante.
Isso é confirmado por
Max Nascimento, gerente da Fragata, casa conhecida pelos
"capetinhas de plantão": "Eu diria
que 80% dos clientes são gays que não
gostam de freqüentar ambientes GLS, não
querem ser reconhecidos, são casados ou estão
na mídia." Claro que no caso dos famosos
há sempre o risco do boy sair por aí divulgando
tudo, mas quem acreditaria nas palavras de um garoto
de programa?"
Nascimento aponta outro fator
importante que determina a preferência de
alguns gays por garotos de programa: a dificuldade de
levar adiante um
relacionamento. "Alguns clientes já tiveram
relacionamentos homossexuais,
mas deixaram de acreditar nesse tipo de relação.
Preferem pagar a se
envolver emocionalmente. Curiosamente, é esse
mesmo tipo que acaba se apaixonando pelo boy."
Para Wagner Medeiros, gerente
da Boy's Club, sauna que é ponto de garotos de
programa no centro de São Paulo, o cliente "é
uma pessoa experiente e que não quer envolvimento
afetivo a fundo, mas é muito fácil
ele se apaixonar pelo boy." Provavelmente, a fuga
da responsabilidade de uma vida a dois com outro homem
é o que torna esses clientes mais vulneráveis
à paixão por um indivíduo que,
inicialmente, estava interessado só no dinheiro.
Foi essa a história de
Amaury, assistente administrativo que durante seis anos
manteve um namoro com um garoto de programa. Amaury
disse
que eles chegaram até a morar juntos e afirma
que foi o fim do amor que
levou à separação. Acreditar que
foi isso, diz ele, evita sofrer. O outro
lado da história pode ser contada pelo michê
Fred Moreno: "Já tirei muito
dinheiro de caras que se apaixonaram por mim. Eu sou
um personagem e finjo que estou apaixonado também,
afinal é isso que o cliente espera. Quando não
quero mais levar adiante, digo que estou namorando uma
menina. Já tive até que trocar de telefone
por causa disso."
Fred, contudo, confirma a opinião
de Max de que, em geral, os clientes preferem o anonimato.
"Na maioria das vezes o cara transa, paga e não
quer nem trocar telefone."
Carlos(*), freqüentador
da New Space, casa que abriga garotos de programa no
centro de São Paulo, disse que já se apaixonou
por alguns michês com quem saiu, mas sempre evitou
envolvimentos maiores. Tinha medo de ser roubado ou,
até mesmo, assassinado, como aconteceu com um
professor universitário recentemente.
Por sinal, o medo de sofrer
algum tipo de violência é o que move a
maioria dos clientes a procurar saunas e casas de massagem
ao invés de pegar os garotos nas ruas. Carlos,
que tem 58 anos e desde os 30 paga regularmente por
serviços sexuais, disse que nos anos 70 e 80
ele só pegava michês nas ruas, mas começou
a ouvir muitas histórias
de crime e ficou com medo: "Na sauna é mais
seguro e acaba saindo
praticamente o mesmo preço."
Ele afirma que sempre gostou
de pagar por sexo, mesmo quando era mais jovem. "Não
é porque já tenho cabelos brancos que
eu não consigo companheiros por aí. Pelo
contrário, tem garoto que até prefere
homem mais velho. Eu pago porque não tenho paciência
de ficar fazendo caras
e bocas."
Mas de fato há uma freqüência
grande da terceira idade nas saunas com garotos de programa.
Isso, segundo Nascimento, deve-se à pouca opção
de lugares direcionados para gays mais velhos. "Aqui
em São Paulo tem só o bailão, o
Caneca de Prata, a Fragata e a Lagoa. A Fragata funciona
como um clube de amigos. As pessoas costumam se encontrar
aqui."
Por esse motivo, a casa apresenta
shows semanalmente e possui uma agenda bastante variada
de festas e outras atividades, que atraem clientes em
busca de diversão e sexo.
Em comum, esses amigos que freqüentam a casa buscam
quase sempre o mesmo tipo de garoto: jovem, forte, másculo.
Para Wagner, o garoto precisa parecer jovem. "Se
o cliente quisesse um efeminado ele iria numa boate
gay. O cliente não quer imaginar que está
saindo com uma bichinha. A divisão é a
seguinte: ou gosta de travesti, ou gosta de garoto de
programa."
Nenhum dos clientes entrevistados
disse gostar de práticas sexuais não muito
comuns, mas essas são confirmadas pelos garotos
de programa. Alexandre, que já foi boy da New
Space, disse que um cliente jogava tortas na sua cara.
Quando não trazia tortas doces de verdade, improvisava
uma com creme de barbear.
Alan, que costuma freqüentar
a Termas Lagoa, afirma que um cliente
pedia para cuspir na sua cara. Fred Moreno diz que já
pediram mais de uma
vez para ele bater: "os caras já chegam
pedindo para apanhar. Tem cliente
que sai do quarto todo roxo. Alguns gostam de levar
soco, mas já peguei um que quis apanhar de chinelo."
Pedro, boy que atende somente
em hotéis e motéis, conta de um cliente
que pedia apenas para ele se masturbar e gozar nos objetos
do quarto, como o abajur e a mesa de cabeceira. Wagner,
no entanto, acha isso tudo normal e conclui: "Coisa
estranha é o cliente chegar aqui e levar o boy
para viajar para a Europa."
Mas isso também acontece.
(*) Nome trocado.
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