A
carinha feliz de um dos maiores físicos do história
da humanidade estaria assim depois de ler essa matéria?
Você responde!
David
Harris
New Scientist*
Em
maio de 2001, Giovanni Amelino-Camelia iniciou discretamente
uma revolução. Não parecia muito: apenas
um trabalho de oito páginas publicado na "Physics
Letters B". Mas era uma dinamite científica. A teoria
especial da relatividade de Einstein, que descreve o comportamento
do espaço, do tempo, e os une como um "espaço-tempo",
tem sido passada de geração em geração
como um fato imutável. Ela é apoiada por uma grande
quantidade de evidências experimentais. Mas, segundo Amelino-Camelia,
Einstein pode ter apresentado apenas metade da história.
Nem precisa ser dito que esta é uma afirmação
muito controversa. Mas desde a publicação de seu
estudo, Amelino-Camelia tem se tornado mais confiante em relação
a ela.
Teoria
e experiência oferecem indícios tentadores de que
a teoria de Einsten pode estar necessitando de uma revisão,
diz ele. E ele não é o único. Outros físicos
estão se unindo atrás de sua bandeira e se juntando
à cruzada contra a aceitação reverente
da relatividade especial. "A religião da relatividade
especial está morta", ele declara. Baseado na Universidade
La Sapienza em Roma, Amelino-Camelia estuda a gravidade quântica
-uma tentativa de mesclar a relatividade com a teoria quântica
e assim produzir uma descrição consistente do
Universo.
Os
pesquisadores neste campo começaram a sentir um certo
desconforto com a relatividade em sua forma presente há
muito tempo: está se mostrando extremamente difícil
uni-la à mecânica quântica. A evidência
experimental ofensora surgiu na forma de raios cósmicos
detectados no Japão, com energias tão altas que
a relatividade especial diz que não deveriam existir.
Foi o que faltava para Amelino-Camelia. "Eu acho que os
dados de raios cósmicos me colocam na posição
de questionar o dogma da relatividade especial", diz ele.
| divulgação |
 |
| Detector
de raios cósmicos no Japão: faltam explicações |
Este
foi um caminho arriscado de se tomar, mas isto o levou a uma nova
forma de relatividade. Não apenas isto fornece uma nova
rota para união das leis da física, como também
é consistente com todas as observações disponíveis
e poderá ser testada diretamente no futuro próximo.
Ela começa com apenas uma idéia: que deve haver
alguma escala na qual espaço e tempo não podem mais
ser descritos de acordo com as regras clássicas familiares,
começando a se comportar de forma quântica.
Esta
transição marca uma fronteira onde as regras do
jogo começam a mudar, e podem se manifestar como uma
quantidade particular de energia ou um comprimento particular.
Para os físicos, comprimento e energia estão vinculados:
a energia de um fóton, por exemplo, dita o comprimento
de onda de sua luz. Isto não soa como grande coisa. Mas
esta idéia aparentemente inócua está em
conflito direto com a relatividade especial. Pegue a idéia
de um limiar de comprimento, por exemplo.
Segundo
a teoria de Einstein, o comprimento de algo depende de quem
o está medindo. Se você ficar parado e medir o
comprimento de uma partícula passando por você
perto da velocidade da luz, você acharia seu comprimento
bem menor do que se ela estivesse simplesmente passando vagarosamente.
Isto se chama contração de Lorentz, e depende
de como o observador está se movendo em relação
ao objeto: outra pessoa passando por você enquanto a partícula
passa mediria um comprimento diferente.
O
conflito se torna claro quando você imagina que a partícula
sob observação seja ligeiramente mais longa do
que o limiar de comprimento. Segundo Einstein, observadores
se movendo em uma direção a veriam se contraindo
abaixo do limiar de comprimento, enquanto para outros, se movendo
em direção diferente, seu comprimento permaneceria
acima do limiar. Quando os observadores formularem o comportamento
da partícula, eles chegarão a respostas diferentes
porque alguns a teriam visto se movendo no espaço-tempo
clássico, e outros a veriam se movendo na versão
quântica. Em outras palavras, as leis da física
parecerão diferentes para pessoas diferentes. E, se desejamos
ter uma descrição apropriada da forma como o Universo
se comporta, isto simplesmente não é possível.
Há
outro problema: em qual estrutura de referência você
define o limiar de comprimento em primeiro lugar? Se uma pessoa
diz, "é deste comprimento" e aponta para um
determinado comprimento, a relatividade especial diz que o comprimento
parecerá diferente para observadores em estruturas móveis
de referência. A solução de Amelino-Camelia
para tudo isto é tornar o limiar de comprimento ou energia
"constante" -ela parece a mesma para todos os observadores.
Desta forma, todos os observadores concordarão se uma
partícula tem ou não energia e comprimento acima
ou abaixo do limiar.
Combinando
constantes
E
onde poderia estar este limiar? Para os físicos, a escala
mais óbvia para investigar é a determinada pela
combinação das constantes fundamentais da teoria
da relatividade e quântica: a constante de Planck h, a
constante gravitacional G e a velocidade da luz c. Combinando-as
de certa forma, você obtém um comprimento: o comprimento
de Planck. Combinando-as de outro jeito, elas produzem a energia
de Planck. Estas escalas são o lugar natural onde esperar
que a teoria da relatividade e quântica se misturem. O
trabalho de Amelino-Camelia na "Physics Letters B"
mostrou que esta abordagem poderia ser desenvolvida em uma nova
teoria consistente com todos os requisitos da gravidade quântica.
Ele
chamou esta revolução [de "relatividade especial
dupla"] (doubly special relativity, DSR). Onde a teoria
de Einstein tinha um limiar intransponível -nenhuma partícula
com massa poderia acelerar além da velocidade da luz-
a de Amelino-Camelia tem duas: a velocidade da luz e o novo
limiar intransponível de comprimento ou energia. Logo
após o aparecimento do trabalho, dois outros pesquisadores
perceberam que Amelino-Camelia pode ter inadvertidamente iniciado
a solucionar seus problemas.
Joo
Magueijo, um teórico que trabalha na Imperial College,
em Londres, estava formulando uma explicação da
evolução do Universo. Ela oferecia uma alternativa
à "inflação", a idéia
de que o Universo passou por um período de expansão
muito rápido logo após o big bang. Mas havia um
alto preço a pagar: a idéia de Magueijo dependia
da velocidade da luz ser variável -uma contradição
direta à teoria de Einstein. Ele sugeria que a velocidade
da luz estava se desacelerando desde o big bang. Magueijo admite
que, apesar disto de lá para cá ter se mostrado
de acordo com alguns outros dados astronômicos inexplicáveis
de outra forma, esta velocidade da luz variável foi conjurada
do nada.
Felizmente,
a relatividade especial dupla de Amelino-Camelia forneceu uma
explicação. A introdução de um limiar
de energia à relatividade produz uma mudança estranha:
na DSR a velocidade da luz depende da energia dos fótons
envolvidos. No enorme calor do início do Universo, as
partículas tinham energias muito elevadas e assim, segundo
a DSR, a velocidade da luz era um tanto mais elevada do que
a que observamos em nossas experiências presentes. Era
exatamente o que Magueijo estava procurando. E, por coincidência,
um colega trabalhando no mesmo prédio também ficou
empolgado com as idéias de Amelino-Camelia. Lee Smolin,
atualmente no Instituto Perimeter de Física Teórica,
em Waterloo, Canadá, passou 10 anos desenvolvendo uma
teoria [de "loop de gravidade quântica"], onde
o próprio tecido do espaco-tempo é composto de
minúsculos pacotes, ou quanta, unidos em uma espécie
de espuma.
A
teoria estava progredindo bem, mas Smolin ainda enfrentava alguns
problemas: os resultados de alguns poucos cálculos entravam
em conflito direto com as exigências da relatividade especial.
"Por cerca de 10 anos eu fiquei confuso", diz ele.
Mudando
a visão
Ocorreu
a Smolin que a resposta poderia ser supor que o comprimento
de Planck parecesse o mesmo para todos os observadores, mas
ele admitiu que não sabia como desenvolver uma teoria
da relatividade que pudesse lidar com isso. Foi Magueijo que
o persuadiu que podia -e devia- ser feito. "Eu não
tinha a idéia, ou a coragem, para tentar formular isto
concretamente antes de trabalhar com Joo", diz Smolin.
Smolin e Magueijo logo desenvolveram sua própria DSR
-de fato, eles mostraram que vários tipos diferentes
de teorias DSR podiam ser construídas.
Agora
há uma série de variações DSR, cada
uma emendando o trabalho de Einstein, e até mesmo oferecendo
sua própria versão da famosa relação
E=mc2. Magueijo, Smolin e Amelino-Camelia estão agora
trabalhando juntos neste abordagem revolucionária. E
o que esta teoria recém-nascida diz sobre o nosso Universo?
O princípio básico de Einstein -de que mantemos
uma velocidade invariável- permanece. Mas todas as experiências
disponíveis para Einstein consideravam a luz com comprimento
de onda longo e baixa energia. E assim a velocidade constante
que ele interpretou genericamente como "velocidade da luz"
é descrita na DSR como velocidade de partículas
de luz de baixa energia.
É
permitido que as partículas de luz de alta energia viagem
ligeiramente mais rápido. E assim como os objetos possuem
velocidades diferentes para observadores diferentes na relatividade
especial, na DSR qualquer coisa que viaja a menos do que a velocidade
constante pode parecer mudar de velocidade. Além disso,
onde a relatividade especial permite que fótons se que
movam à velocidade da luz pareçam ser de cores
diferentes para diferentes observadores, a DSR vai um pouco
além. Cores diferentes viajam em velocidades diferentes.
Isto porque diferentes comprimentos de onda correspondem a energias
diferentes -e na DSR, isto afeta a velocidade da luz. Estas
características sozinhas podem mudar a face da cosmologia
padrão.
Por
mais de 20 anos, os cosmólogos têm construído
o modelo de inflação da história do Universo.
Ele foi apresentado para explicar o motivo do Universo ser tão
uniforme em temperatura e densidade. Com uma velocidade da luz
finita, há um limite para a taxa na qual as partículas
e a radiação podem se espalhar por algo do tamanho
do Universo, assim como poderia ter atingido o equilíbrio
relativo que observamos? Se tudo estivesse compactado (e portanto
em contato físico) antes da repentina expansão,
a uniformidade não seria um problema. Mas apesar da inflação
explicar algumas das características e história
do Universo, ela apresenta limitações.
A
DSR, por outro lado, explica tudo que a inflação
explica, e mais. Na DSR, as altas energias dos primórdios
do Universo faziam com que a luz viajasse mais rápido
do que agora. Partes do Universo que atualmente estão
sem contato umas com as outras antes podiam ter como se comunicar
porque a luz viajava mais rápido naquela época.
A DSR também dá razão à expansão
em aceleração do nosso Universo, o que a inflação
não consegue explicar. Os físicos às vezes
atribuem esta expansão à "energia negra",
mas ninguém sabe exatamente o que é isto ou como
funciona.
Uma
série de mecanismos foi proposta. Uma forma de pensar
sobre a energia negra é dizer que ela eqüivale ao
espaço ser ligeiramente curvado ao invés de plano:
isto gera uma espécie de tensão elástica
que o força a se expandir para fora. Laura Mersini, Mar
Bastero-Gil e Panagiota Kanti da Scuola Normale Superiore, em
Pisa, e do Instituto Nacional de Física Nuclear da Itália,
em Roma, mostraram recentemente que modificações
na relação Emc2 de Einstein levam exatamente a
tal curvatura do espaço. Em outras palavras, as modificações
na DSR fazem a relatividade também explicar a "energia
negra". Talvez mais importante, a DSR explica o de outra
forma inexplicável: os dados de raios cósmicos
do Japão.
Por
mais de uma década, físicos trabalhando no Akeno
Giant Air Shower Array da Universidade de Tóquio têm
visto raios cósmicos que a relatividade especial diz
que não deviam existir. Os raios cósmicos são
partículas produzidas em eventos violentos como explosões
supernova, que então viajam em velocidades enormes pelo
espaço. Se forem de energia elevada o bastante, a relatividade
dita que qualquer colisão com os abundantes fótons
de baixa energia no Universo os destruiria. No momento em que
chegam aos nossos detectores na Terra, não deveria restar
quaisquer partículas de raios cósmicos com energias
superiores a 5 x 1019 eletronvolts. Isto é conhecido
como limite Greisen-Zatsepin-Kuzmin.
Mas
ao longo da última década, o Akeno tem detectado
vários raios cósmicos acima do limite GZK, aparentemente
violando a relatividade especial.
Elevando
o limite
Mas
na DSR, não há problema: a teoria modifica as
energias nas quais as partículas são criadas e
destruídas. Ao adotar a relatividade especial sem questionamento,
nós podemos ter subestimado o limite GZK, diz Amelino-Camelia.
Ele tem mostrado que há uma classe de teorias DSR que
podem resolver o quebra-cabeça dos raios cósmicos,
mas ainda não se sabe qual teoria DSR nesta categoria
é a melhor. E aí se encontra o calcanhar de Aquiles
da DSR -ainda não há qualquer prova positiva.
Tudo o que a DSR apresentou até o momento é que
não contradiz a evidência que está começando
a surgir com as observações de raios cósmicos.
Para
algumas pessoas, isto não basta. John Ellis, o físico
teórico baseado no Cern em Genebra, não acha que
os dados de raios cósmicos sejam um bom motivo para modificar
a equação de Einstein. O cosmólogo de Harvard,
Sheldon Glashow, premiado com o Nobel, concorda: ele não
vê nenhuma evidência experimental ou teórica
que o faça pensar que a relatividade especial precise
ser modificada. Os defensores da DSR são rápidos
em admitir que a evidência dos raios cósmicos pode
ser falha. O número de eventos de raios cósmicos
que contradizem o limite GZK é pequeno e alguns físicos,
inclusive Amelino-Camelia, sugerem que uma má interpretação
dos dados possa explicar as anomalias. Assim, isto é
apenas uma moda passageira? "Nem um pouco", diz Glashow.
Por
mais descrentes que sejam os críticos, Magueijo acredita
que há uma revelação se aproximando. Já
que a estrutura da DSR pode responder qualquer pergunta feita
pela relatividade especial -e em alguns casos fornecer respostas
sutilmente diferentes- ele sente que chegará um ponto
em que as pessoas terão que encarar a possibilidade de
que Einstein necessita de uma revisão. "O fato de
que as respostas geralmente são ligeiramente diferentes
significa que você tem uma forma de colocar a relatividade
no tribunal da experiência", diz ele. Mas muitas
das implicações experimentais da DSR parecem estar
limitadas a escalas que nossas experiências ainda não
podem sondar.
A
diferença entre a velocidade máxima no universo
e a velocidade da luz, por exemplo, deveria ser extremamente
pequena, e está além da precisão de qualquer
instrumento que temos. É apenas quando partículas
apresentam energias extremamente altas, aquelas que se aproximam
da energia constante da DSR, é que as diferenças
se tornam apreciáveis. E apesar da DSR também
mudar a forma como os comprimentos mudam com o movimento do
observador, assim como faz a relatividade especial, a diferença
entre a DSR e a relatividade especial apenas aparece por volta
do comprimento de Planck: 10-35 metros. Isto é 10-20
vezes o tamanho de um próton. Este comprimento, e sua
escala correspondente de energia, não são nem
de perto acessíveis nos aceleradores de partículas
mais poderosos do mundo.
Mais
evidências experimentais podem surgir com o lançamento
em 2006 do Gamma Ray Large Area Telescope (Glast, telescópio
de raios gama de grande área), um satélite da
Nasa projetado para detectar explosões de raios gama
de energia ultra elevada de galáxias distantes. Experiências
que serão realizadas neste telescópio medirão
a forma como as partículas se movem, com uma sensibilidade
que poderá discernir entre as previsões da DSR
e da relatividade especial. Até lá, dados mais
extensos de raios cósmicos também estarão
disponíveis pelo Observatório Pierre Auger, que
está em construção na Argentina.
Mas
como a DSR tem apenas dois anos de idade, muito mais implicações
provavelmente surgirão. Segundo Amelino-Camelia, físicos
poderão encontrar testes acessíveis e definitivos
para a nova teoria a qualquer momento. "Apenas um número
relativamente pequeno de contextos foi analisado com os detalhes
necessários", diz ele. Magueijo está confiante
que a DSR eventualmente se disseminará: toda a física
pode se enquadrar na estrutura da DSR "e será mais
fácil do que pensamos", diz ele.
Isto
poderá se mostrar extremamente desconfortável.
"A relatividade especial dupla certamente exigirá
que abandonemos algum outro conceito que atualmente consideramos
absolutamente correto", alerta Amelino-Camelia. Se estes
físicos estiverem certos, então o reino de Einstein
está chegando ao fim. Quando o edifício dos físicos
do século 20 começar a desabar ao seu redor, não
diga que não foi avisado.
*
David Harris é o chefe de relações de mídia
da Sociedade Americana de Física
Outras
leituras: "Faster than the speed of light" (mais rápido
que a velocidade da luz) por Joo Magueijo, Perseus (2003)
Tradução: George El Khouri Andolfato